28.10.05

O dia em que entrevistei Jaap Stam



Em um raro momento de paz, sem a zoeira das crianças em volta, passo a manhã de domingo ao lado do meu pai vendo na TV uma partida do Campeonato Inglês entre Manchester United e Manchester City. Logo no início de jogo, o zagueiro Jaap Stam, do Manchester United, com sua careca lustrosa, tenta afastar uma bola da defesa e, na hora do chute, é atingido pela sola da chuteira de um adversário. O impacto é tão forte que o jogador quebra o tornozelo direito e fica se contorcendo de dores no gramado. Imediatamente, o Stam é colocado na ambulância e deixa o estádio.
Depois de passada a manhã de domingo, estou caminhando pela Praça Maurício Cardoso, perto do Shopping Moinhos, quando um carro estaciona na frente de um hospital, em uma ruazinha sem saída. De dentro do carro dois homens ajudam a tirar nada mais nada menos que o jogador Stam. Ainda com o uniforme da partida mas sem a chuteira e a meia do pé direito, ele é colocado numa maca e levado para dentro do hospital onde trabalha um dos maiores ortopedistas do país. Provavelmente deveria realizar alguma cirurgia no tornozelo quebrado durante a partida.
Surpreso com o fato, liguei para o pai com o objetivo de comentar o acontecido. Ele também ficou surpreso.

Meu instinto jornalístico fez com que eu entrasse no hospital atrás de mais informações sobre o atleta. De repente poderia fazer uma matéria que se transformaria em um furo jornalístico já que não havia ninguém da imprensa no local. Poderia vender para algum jornal de Manchester ou de Londres.



Já dentro do hospital, que mais parecia um hotel de luxo, me dirigi ao balcão de atendimento para perguntar sobre o jogador. O problema é que eu não sabia o nome completo do paciente, somente conhecia como Stam. Falei com a atendente e perguntei sobre um jogador que acabara de entrar. Ela disse para eu perguntar para uma mulher e apontou em direção de uma loira, de blusa branca, que estava de pé, no fundo do corredor. Me dirigi até ela e logo vi que não era brasileira. Imaginei que fosse holandesa ou alemã. Perguntei sobre o jogador mas ela não entendeu até que falei em inglês que era jornalista e que precisava saber do atleta. Ela sorriu e de imediato abriu uma cortina que servia de porta para uma sala. Lá dentro, o jogador, já sem o uniforme do Manchester, estava descansando na maca. Me apresentei, tentando falar o inglês da melhor maneira possível, dizendo que eu era um admirador do futebol dele e que queria fazer uma matéria sobre a situação do tornozelo quebrado. Muito simpático, Stam respondeu todas as perguntas. Percebi que a loira estava com ele. Talvez fosse a namorada ou a esposa. Depois de anotar o depoimento, pedi autorização para fazer uma foto mas, lamentavelmente, não estava com a minha caneta fotográfica. Para não perder o embalo, pedi um autógrafo em uma folha de papel. Ele perguntou meu nome e fez uma dedicatória personalizada, em português. Permanecemos conversando sobre outros assuntos e ele me disse que gostava muito do Inter de Porto Alegre e que queria comprar uma camiseta. Tentei faze-lo mudar de idéia e sugeri a compra de uma camisa do Grêmio. Ele preferiu o Internacional pela cor vermelha ser semelhante a camisa do Manchester. Disse que ele poderia comprar a camiseta no shopping Moinhos que ficava logo ali ao lado do hospital e me ofereci para acompanhar. Ele agradeceu e disse que precisava ir até ao quarto trocar de roupa e pegar dinheiro. Foi então que percebi que o hospital também era um hotel. Caminhando normalmente, apesar do tornozelo quebrado, Stam saiu da sala onde estava e, acompanhado da loira, seguiu pelo corredor do hospital/hotel em direção ao quarto. Esperei uns minutos na porta até que ele trocasse de roupa. Enquanto caminhávamos em direção a saída, perguntei se ele ainda tinha a camisa do Manchester com a qual ele havia chegado ao hospital e pedi para que me desse de presente. Meio contrariado ele deu de ombros, olhou para a loira e voltou em direção ao quarto. De lá saiu com um saco plástico e me entregou. Havia uma camiseta. Agradeci muito e notei que se tratava de uma camisa oficial da Fiorentina, da Itália. Tentei lembrar de algum jogo do Manchester contra a Fiorentina nos últimos tempos mas não me veio nenhum.
Entramos em um táxi e seguimos para o Shopping Moinhos, um trajeto que poderia muito bem ter sido feito a pé. A loira pediu para que o motorista ficasse aguardando e disse que já retornava. Cheguei a pensar em deixar a sacola plástica no carro mas preferi carrega-la comigo para evitar que ela sumisse.
Foi então que acordei.
Esse foi o sonho que tive hoje.

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