4.11.05

A poesia (um deslize)


O jeito rude dos homens circunspectos não permite o transborde de gostos supostamente duvidosos como poesia e balé, só para exemplificar. Por mais que minha criação tenha sido voltada para a contemplação das coisas belas da vida, nunca gostei deste tipo de “arte alternativa” não entendendo a suposta beleza que outras pessoas pudessem encontrar em ditas manifestações artísticas.
Considero-me um homem rude e, quiçá, insensível em muitos momentos da minha existência. Talvez por isso raramente tenha deixado transparecer este lado, digamos, “romântico”. Nem mesmo nos momentos de delírio, provocados pelo efeito entorpecente resultante da ingestão de substâncias alucinógenas, consigo ver as coisas através do terceiro olho (ou seria o quarto?).
Mas, para não dizer que não falei de flores, no início da década de 90, quando cursava a universidade de jornalismo, na apresentação de um trabalho em público, optei pela declamação de uma obra poética assinada por Castro Alves, com direito à aula de dramaturgia. Relaciono esta perda momentânea de identidade com o violento efeito da fluoxetina, um inibidor seletivo da captação da serotonina no nível do córtex cerebral, neurôniosserotoninérgicos e das plaquetas, existente no Prozac que eu tomava na época.
Bom, acreditem ou não, a apresentação foi um verdadeiro sucesso.
Pesquisando na internet, tenho a oportunidade de compartilhar com os fãs o poema “Boa Noite”, declamado por Márcio Neves em 1994.

Boa noite, Maria! Eu vou,me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde. .
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite! ... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos!

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? ... pois foi mentira...
Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua. . .

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor!
Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora. . .
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa noite! - formosa Consuelo.

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