17.4.06

Refém de mim mesmo

Uma criança quando gordinha e sem muitos atributos físicos normalmente precisa usar de alguns artifícios para não ser excluída pelo meio no qual vive. Ou ela é o alvo das brincadeiras e chacota da turma ou é o palhaço, engraçado, piadista.
Escolhi a segunda opção e até hoje pago por isso.
Não que tenha escolhido errado, até porque era a melhor escolha a ser feita naquela época da minha vida. O problema é que até hoje uso deste mesmo artifício em determinadas situações. Lógico que já aprendi a ser aceito de maneiras diferentes, ainda que sejam maneiras assexuadas, mas os reflexo da infância teimam em me perseguir.
Ontem percebi que sou refém das minhas próprias piadas.
Sinto a extrema necessidade de fazer a piada por mais que ela não seja adequada e nem bem-vinda naquele momento.
- Cara, tu sabe qual é o celular do Barbiroto?
Por mais fácil e rápido que seja a resposta, ela é sempre a mesma:
- Cara, na última vez que falei com ele era um Nokia.
Evidente que o interlocutor ri mesmo que a piada não seja engraçada e nem seja dita no momento certo. Eu mesmo já não acho graça nisso, mas sou refém da minha própria piada. Ela surge automaticamente.
Além disso, me condiciona a ver piada até mesmo onde não existe.
- Cara, tu viste o Fantástico ontem?
Por mais que a pergunta seja feita sem nenhum cunho humorístico, fica impossível para um piadista respondê-la sem levar em consideração as segundas intenções. Jamais me perguntem se eu vi o Fantástico domingo.
Façam assim:
- Cara, tu viste aquele programa jornalístico da Rede Globo veiculado domingo à noite logo após o Domingão do Faustão?
Mas o fato de eu já estar me dando conta deste problema já é um fator positivo para acabar com ele. Antes eu achava que todos os posts do meu blog deveriam terminar de forma engraçada, com uma piadinha besta nas entrelinhas. Hoje vi que não há necessidade de se fazer isso para se ter um blog inteligente, criativo e conceituado. Vou seguir o exemplo do meu grande amigo Mário.
Tenho certeza que vocês conhecem ele.
Não?

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