8.9.06

Alô, pai. Vem me buscar.

Sei que o local não é muito propício para sentimentalismo, mas sentado no vaso me debulhei em lágrimas lendo a carta escrita pelo pai que perdeu sua filha de 17 anos em um acidente de carro no Rio de Janeiro publicada pela Zero Hora.
Esse trecho é pra matar:

“Um pedaço de mim foi arrancado do meu peito, para sempre, ao ver minha filha inerte sob um plástico preto. Quem eu embalei com imensa alegria e amor na sala de parto, em sua chegada, agora estava sem vida em meus braços, na sua partida.”

Tenho duas crianças ainda pequenas, mas já sofro por antecipação prevendo as noites de insônia que irei passar enquanto não tiver os dois de volta em casa depois de uma noitada com os amigos sabe-se lá Deus aonde.
Só de imaginar já sinto um aperto no coração.
O pessoal que tem filho deve entender muito bem o que quero dizer.
E quem ainda não tem, também.

Sempre fui uma pessoa muito consciente em relação a isso.
Até mesmo na minha adolescência, quando o Luiz Nei me liberava para sair de carro pelas noites de Porto Alegre quando eu tinha 15 anos.
Não sei se por confiar demais em mim ou por saber da minha responsabilidade (ou pelas duas coisas).
Mesmo assim, não me imagino liberando o carro pro Mártin ou pra Maria Eduarda antes dos 18 anos.
Nem depois.
Acredito que, hoje em dia, dezenas de pais de amigos e amigas (a quem carinhosamente ainda chamo de "tio" ou "tia") devem ser gratos a mim por esse tipo de comportamento.
Não foram raras as vezes que o Strawberry Bus (como carinhosamente era chamada a Caravan verde da minha mãe) atravessou as madrugadas e Porto Alegre ou Atlântida atrolhado de pré-adolescentes sedentos por diversão.
Talvez por ser um dos poucos motorizados na minha idade, cheguei a colocar 18 pessoas dentro do carro para sair.
Aposto que nenhuma das pessoas tem alguma queixa de mim sobre excesso de velocidade, direção perigosa ou dirigir depois de consumir álcool.
Pois é.
Nem beber, eu bebia.
As únicas contravenções, por serem raras, acabaram marcando:
- Um pega que eu fiz na avenida Ipiranga de ponta a ponta com o Marcelo alucinado com meio corpo pra fora da janela do carro berrando “PISA, PISA!” enquanto o outro carro grudava na minha traseira.
- Uma capotagem espetacular em Xangri-lá enquanto dava um “cavalo de pau” na areia.
- Uma viagem de Uruguaiana para Porto Alegre que durou apenas 3 horas porque a velocidade média do Monza que eu dirigia não baixou dos 160 km/h. Tudo isso para chegar a tempo de assistir o jogo Brasil x Uruguai no Maracanã, último jogo das eliminatórias para a Copa de 1994.
Bom, em todas essas, eu já tinha mais de 18 anos.
Lógico que não justifica.

Evidente que uma boa criação ajuda a formar a consciência de um jovem.
Mas, e os outros?
A menina que morreu estava na carona.
Nesse caso, só resta pedir à Deus para que nos poupe desta dor sem tamanho.
Como diz o pai em mais um trecho de seu desabafo falando sobre os filhos:

"por mais que se cuide, oriente e proteja, eles são como água nas mãos em forma de concha. Uma hora escorrem por entre os dedos... "

Só espero que, daqui há alguns anos, eu seja acordado de madrugada por um telefonema dos meus filhos para eu ir buscá-los em uma festa ou num barzinho e não para ter que fazer o reconhecimento no IML.

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