23.9.06

Pontualidade suíça

O albergue de Berna ficava bem próximo da estação de trem.
Na beira do rio Aar.
Para chegar à estação, o inconveniente era ter que subir um paredão de pedra de aproximadamente uns 200 metros de altura.
O único caminho era uma escadaria íngreme, junto ao paredão.
Já lá em cima, era só cruzar duas avenidas até a entrada principal da gare.
Deitado na parte de cima de um dos quadro beliches que tinham no meu dormitório, analisava minuciosamente o mapa da Europa e o meu roteiro de volta a Madri.
Para não perder muito tempo, decidi tomar o trem das 5h17 rumo a Lausanne.
Isso mesmo. 5h17 da manhã.
E quando o guia dos horários dos trens diz “partida às 5h17”, não é “partida às 5h18” nem “às 5h16”.
Chegando em Lausanne, era só trocar de trem e pegar o TGV para Paris.
O TGV era um trem ultra moderno, de grande velocidade.
Pronto. Era fácil.
Decidido o roteiro, minha maior preocupação era “como acordar para pegar o trem as 5h17?”.
Decidi confiar no meu despertador interno que ainda não havia falhado nessa gira de mais de um mês pelo continente europeu.
Dito e feito.
Às 4h30 acordei.
Albergue às escuras.
Silêncio absoluto.
Saí da cama.
Tateando, consegui ligar a luz do corredor.
Peguei minha mochila e fui me vestir no banheiro.
Lavei o rosto, coloquei minhas lentes, troquei de roupa.
Tudo correndo bem.
Meu relógio marcava 4h45.
Arrumei minha mochila, coloquei nas costas.
Naquele período da viagem, já pesava uma tonelada.
Caminhei pelo corredor semi iluminado, cruzei a porta que dividia os dormitórios do saguão principal.
Parei no hall de entrada, completamente deserto e escuro.
Ao lado da máquina de café, um termômetro digital marcava 10 graus negativos.
Sem problemas, já havia enfrentado menos 20 graus em Berlim dias antes.
Enrolei meu cachecol do Grasshopper em volta do pescoço.
E fui encarar o frio.
Opa.
Problemas.
Porta da rua fechada.
Como não pensei nisso antes?
Era óbvio que a porta da rua iria estar fechada a essa hora da madrugada.
O que fazer?
Pensei comigo: “me fudi”.
Fui até o balcão de atendimento.
Talvez alguém estivesse dormindo por ali.
Nada.
Bati na porta de madeira onde imaginei ser a entrada dos aposentos dos funcionários do albergue.
Nenhum sinal.
Bati mais forte.
Nada.
Comecei a me desesperar.
Gritei chamando por alguém.
Sem resposta.
Tentei forçar a porta da rua.
Nem mexeu.
O relógio digital, aquele mesmo onde ficava o termômetro, marcava 4h58.
Foi quando me chamou atenção um aviso na parede escrito em inglês:
“Em caso de emergência, aperte o botão vermelho”.
Era isso.
Que se dane.
Levantei a tampinha e grudei o dedo no botão.
A resposta foi imediata.
Um alarme ensurdecedor ecoou pelo saguão como se 345 ambulâncias houvessem entrado albergue adentro.
Começou a aparecer gente desesperada de todas as portas.
Pensei comigo: “me fudi”.
Lembrei no Cuca, no Henrique, jogadores do Grêmio que tinham sido presos naquela mesma cidade.
“Que merda, vou pra mesma prisão”.
Uma das donas do albergue (pelo menos achei que fosse) me xingava em alemão com o rosto vermelho de raiva.
Não demorou muito pra eu ficar cercado de gente.
Já não mais desesperados, porém curiosos.
Agarrado no meu guia de horários, eu só gritava:
- I have train! I have train! Open the door! Open the door!
No meio do tumulto, consegui “fugir”.
Mais com medo da loucura que havia feito do que propriamente preocupado com o atraso, corri em disparada pelas ruas escuras e úmidas de Berna em direção ao paredão de pedra.
Os primeiros metros da grande escadaria consegui vencer com facilidade.
Aos poucos fui perdendo o fôlego.
Degrau por degrau.
Não agüentava mais.
Respiração ofegante.
O cachecol me sufocando.
A mochila pesando 34 toneladas.
Quase me ajoelhei ao me aproximar dos últimos degraus.
Já não dava mais pra correr.
Quando cruzei caminhando a primeira avenida em direção à estação central, meu relógio marcava 5h15.
Pensei comigo: “me fudi”.
Ainda vou ter que descobrir de qual passarela o trem sai.
Não vai dar tempo.
Corri usando o que restava da minha força.
Estação a dentro, fui direto ao local de onde partem os trens.
Não haviam muitos ali parados.
Apenas três.
Ao lado de um deles, vi um fiscal de chapeuzinho azul.
Acenei enquanto tentava emitir algum ruído pela boca pra chamar a atenção dele.
Ele me viu ao longe e gritou:
- LAUSANNE?
Respondi ofegante e gritando:
- IÁ! IÁ!
Pelo menos “sim” em alemão eu sabia dizer.
Me senti um poliglota.
Ele me fez sinal para que eu corresse.
Cruzei por cima dos trilhos e praticamente me atirei pra dentro do primeiro vagão.
Foi eu cair lá dentro para o trem começar a se movimentar.
Do lado de fora, o fiscal riu, me acenou e falou alguma coisa em alemão como que elogiando meu esforço sobre humano.
Olhei pra ele, ri e respondi com sotaque alemão:
- Eu serrr foda! Eu serrr foda!
Foi a única coisa que me veio na cabeça naquela hora.
Olhei o relógio.
Eram 5h20.
O trem havia atrasado três minutos.
Pensei comigo: “pontualidade é a putaqueospariu”.

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