8.3.07

Ascensão e queda do “Templo do Futebol”



Sempre fui um apaixonado por futebol e pelas coisas do futebol.
Na metade da década de 80, passei a me dedicar a colecionar revistas estrangeiras de futebol.
Sem muitas opções, pagava verdadeiras fortunas por uma edição da Don Balón, Onze, France Football, Guerin Sportivo, El Gráfico, SoloFútbol, Bild, entre outras raridades encontradas tão somente em um ou dois revisteiros (normalmente no aeroporto).
Aos poucos, senti a necessidade de expandir minha coleção para outros souvenires.
Em cada uma destas publicações, havia pelo menos uma página dedicada à troca de correspondências entre fãs de futebol.
Sem acreditar muito nos possíveis resultados, tratei de escrever algumas cartas (nos respectivos idiomas) me colocando à disposição de torcedores do mundo todo para intercambio de materiais esportivos.
Algum tempo depois, já havia até esquecido das cartas, começaram a chover correspondências na caixinha de correio do meu apartamento.
Foi então que descobri que uma das revistas havia publicado meu pedido.
Com o passar dos dias, e o aumento da quantidade de cartas, percebi que não apenas uma, mas duas, três, quatro, cinco, seis, sete, dezoito revistas diferentes haviam publicado meu pedido em suas edições.
A brincadeira tomou proporções absurdas.
Diariamente, recebia mais de uma dezena de cartas do mundo todo.
Envelopes e caixas de todos os tamanhos com uma variedade enorme de souvenires.
Passei a ter muita dificuldade para responder.
Era humanamente impossível conseguir retribuir a quantidade de coisas que eu recebia.
Não só pela quantidade de cartas como pela falta de opções.
Na época, Grêmio e Inter não possuíam nem 95% dos produtos esportivos que têm hoje em dia.
A lojinha do Grêmio no estádio Olímpico se resumia a um balcão onde, no máximo, conseguia uma flâmula, um adesivo, uma camiseta e um postal.
Enviados estes itens, não tinha mais nada pra mandar.
Na tentativa de me organizar, passei a selecionar os contatos mais fiéis e os souvenires que me interessavam.
Optei pelas flâmulas, bandeiras, camisetas e postais (produtos mais fáceis de achar e de mandar).
No mercado europeu, uma flâmula do Grêmio valia pelo menos cinco ou seis flâmulas de times da Espanha, Itália, Portugal e Alemanha, só para ficar nestes países mais futebolisticamente desenvolvidos.
Sem ter muito o que fazer com tanta coisas, um dia decidi transformar meu quarto no “Templo do Futebol”.
Juntei bandeiras, flâmulas, posters, fotos e, com elas, tratei de forrar cada uma das quatro paredes.
E mais teto, armários, janela, porta, etc.
Até não haver mais nenhum espaço vago.
Sensacional!
Meu dormitório passou a ser o sonho de todo o apaixonado por futebol.

...

No meu final de adolescência, início da fase adulta, época de colégio, uma das coisas das quais mais eu me orgulhava era do meu quarto.
Contando com a propaganda boca a boca dos meus amigos mais chegados, ele passou a ser uma verdadeira sensação entre os amantes do futebol.
Terminados os dias de aula no Anchieta, uma verdadeira peregrinação tinha início com o único objetivo de visitar meus aposentos.
Diariamente, dezenas de ônibus de excursão estacionavam na frente do prédio com turistas dispostos a pagar fortunas por uma simples foto da porta do meu armário.
Cosadeloco!
Com o passar dos anos, com um aparente amadurecimento e com uma mudança brusca nas necessidades, fui percebendo que meu quarto tornou-se um antro de circulação exclusivamente masculina.
Algumas meninas até achavam o local interessante, mas jamais gostariam de estar nua naquela cama sob os olhares do Emilio Butragueño, do Van Basten ou do Toto Schillaci.
Foi difícil assumir isso.
Foi difícil aceitar.
Passei a não repor mais as flâmulas que teimavam em cair da parede. Ou as bandeiras que se soltavam do teto.
Mas o golpe final veio depois que me casei.
Após a mudança para um novo lar, todos aqueles anos de dedicação ao esporte bretão acabaram sufocados em três ou quatro caixas de papelão.
Triste fim.
Os tempos difíceis e a falta de espaço fizeram com que eu tivesse que vender boa parte da minha gigantesca coleção.
Centenas de revistas, fotos, postais, posters, documentos, foram pro lixo para deleite da minha carrasca companheira, na época.
Era um aviso. Eu que não percebi.
Mas jamais esqueci daquele meu quarto no 14º andar.

...

A paixão, há anos adormecida, renasceu quando me separei.
Como que uma “volta à adolescência” (assim definido pela Juçá), a primeira coisa que tratei de fazer quando voltei para a casa dos meus pais foi resgatar o que restara dos meus souvenires.
Procura aqui, procura ali, consegui recuperar uma pequena parte.
Suficiente para cobrir pelo menos duas paredes do meu novo dormitório (muito menor do que o antigo).
Aos poucos, o orgulho ferido passou a cicatrizar.
A volta aos tempos gloriosos me deixou saltitante e jovial.
Confiante.
Transbordando alegria e amor.
Conheci a verdadeira mulher da minha vida!
Faltava pouco pra ela vir me visitar.
Limpei meu quarto.
Organizei todas as coisas.
Ajeitei algumas flâmulas que estavam tortas.
Prendi algumas bandeiras que estavam penduradas.
Comprei cuecas novas.
Tudo pra agradar minha amada.
Com a mala na mão, ela entrou lentamente no quarto.
Admirando cada canto.
Analisando cada flâmula.
Contando quantos estrelas de campeão o Milan tem na sua bandeira.
Com o peito estufado de orgulho, não resisti:
- Então? O que achou?
- Breguinha, hein!

Breguinha??
Meu mundo caiu.
Se alguém tiver interesse ou conhecer quem goste, terei imenso prazer em negociar o que sobrou da minha coleção.
Isso se meus pulsos pararem de sangrar.

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