26.6.07

Fundo de garrafa

Com 12 graus de miopia em cada olho, optei pelo uso de lentes de contato quando tinha meus 14 ou 15 anos de idade.
Não só pela estética, mas também pela necessidade de obter uma visão melhor já que até mesmo os óculos não eram capazes de me fazer enxergar com perfeição pelo grau elevado da miopia somada ao astigmatismo.
Não preciso dizer que meus óculos, na época, pareciam um fundo de garrafa.
Estilo Enéas Carneiro ou o Silva, personagem do Chico Anysio.
Após a opção pelas lentes de contato, o uso dos óculos ficou resumido à hora de ir dormir.
Há uns seis anos atrás, cheguei a fazer uns óculos novos.
Mais modernos.
Uma armação fina, delicada e uma lente anti-reflexo que elimina a sensação do fundo de garrafa.
Dava até para sair na rua com eles sem ser motivo de chacotas.
Mas o pobrezinho durou pouco, esmagado em uma brincadeira com a Duda.
Nunca mais fiz um novo.
A Priscila até sabia da existência do bizarro objeto ocular, mas evitava a usar na frente dela.
Talvez com a solidificação da relação ela fosse capaz de assimilar melhor a idéia de me ver com eles.
Ontem à noite, com as lentes incomodando, decidi coloca-los.
Entrei lentamente no quarto enquanto a Priscila lia deitada na cama.
- Não olha pra mim. Tô de óculos.
Mesmo pedindo educadamente, não adiantou.
De revesgueio, percebi que ela me espiava.
E ria.
- Tá rindo do que, besta?
- Nada, Má. To rindo do teu jeito querendo se esconder. Deixa de ser bobo. Teus óculos não são feios.
- Ah, não são? Então amanhã vou sair com eles, vou te levar até o teu trabalho e vou subir contigo, entrar na agência e cumprimentar o pessoal.
- Pode ir, não tem problema. Pelo menos assim nenhuma menina vai te paquerar.

Preferia que as pessoas fossem mais sinceras ao invés de esconderem a verdade nas entrelinhas.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...