21.6.07

Sim, eu minto

Ontem à noite realizamos uma reunião na sala da assessoria de imprensa do Grêmio algumas horas antes do início da final da Libertadores.
Para acertar os últimos detalhes do nosso trabalho.
No final, meu chefe se dirigiu a mim:
- E tu, Márcio. Quando o Grêmio estiver sendo campeão, não larga tudo e vai lá pro campo. Faz o teu trabalho primeiro, e depois que acabar pode invadir o campo pelado, faz o que tu quiser. Ah, e leva a cãmera pra fazer fotos.
Uma das coisas mais difíceis em se trabalhar na assessoria de imprensa do Grêmio é conseguir manter a isenção diante de alguns fatos que mexem contigo.
Já tenho nove anos de Grêmio e até hoje passo por situação que considero extremamente úteis para o meu crescimento profissional.
Quando o time ganha, tudo bem.
Tudo é festa!
Os textos fluem normalmente e a paixão pelo clube é transmitida aos leitores por meio de crônicas recheadas de metáforas, simbolismos e emoção, acima de tudo.
O problema é quando perde.
E olha que já enfrentei um rebaixamento na pele.
Muito difícil conseguir amenizar as coisas.
Muito difícil não escrever aquilo que realmente estamos pensando e que estamos com vontade de escrever.
Muito difícil não deixar a emoção superar a razão.
Tenho que achar artifícios para encobrir a dura realidade.
Quando um jogador erra e entrega a bola para o adversário fazer o gol, não posso escrever que ele é muito ruim e que deveria estar catando lixo na rua ao invés de vestir a camisa do Grêmio.
Qual a solução?
Dizer que o jogador teve azar e que acabou “surpreendido” pelo adversário?
Ou que escorregou na hora em que ia dominar a bola?
Ou colocar a culpa no juiz que não marcou uma falta no início do lance?
Mais ou menos isso...
Dizer a verdade? Jamais.
Para trabalhar na assessoria de imprensa do Grêmio, temos que deixar de lado tudo aquilo que aprendemos em anos de faculdade de jornalismo.
Tudo o que aprendemos sobre ética ou sobre priorizar a verdade doa a quem doer.
É necessário ter um pouco de desvio de caráter.
E se você não tiver, é bom criar se quiser continuar empregado.
Nestes nove anos de Grêmio, já fui chamado por dois presidentes.
- Márcio. Como tu me escreve uma coisas dessas no site oficial do Grêmio?
- Mas Presidente, foi uma falha terrível do nosso zagueiro.
- Não importa, Márcio. Não somos nós que vamos dizer isso.
Então tá.
Seja como for, o Patrício teve sua visão prejudicada pela luz dos refletores quando marcou um gol contra.
Ou o Lúcio sempre escorrerga quando vai fazer um cruzamento. Por isso a bola sempre cai atrás da goleira.
Ou o Tuta foi seguro pela camisa, por isso não conseguiu chegar na bola.
Ou 4 a 0 no Boca, eu acredito!
Jornalismo imparcial.
Verdade acima de tudo.
Vão à merda.

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