30.8.07

O Armário dos Prazeres Proibidos

Quando somos pequenos, nosso imaginário cria um mundo de aventura para tornarmos nosso dia-a-dia mais fácil de ser vivido.
Somos guerreiros medievais tendo que enfrentar dezenas de desafios, como a Bruxa da Floresta Negra, o Ogro do Pântano de Gosma ou o Dragão da Caverna do Apocalipse, para chegarmos ao Cálice Sagrado.
Quando eu era pequeno, todas minhas atenções estavam voltadas para um lugar mágico, porém inóspito.
Um lugar onde o nenhum ser humano jamais chegou e onde a recompensa de quem conseguisse era muito melhor do que um simples Cálice Sagrado.
Estou falando da Segunda Gaveta do Quarto da Minha Irmã.
Era lá, neste mundo obscuro e cor de rosa, onde a Bruxa da Floresta Negra guardava, a sete chaves, as deliciosas guloseimas do prazer supremo.
Chocolates que a vovó trazia todas as quintas-feiras.
Caramelos coloridos dos mais diversos sabores.
Ovos de páscoa inteiros que resistiam aos anos trancafiados dentro daquele lugar amaldiçoado.
Meu principal objetivo era salva-los.
Deitando na minha cama, no quarto ao lado, podia ouvir os murmúrios e as lamentações vindos de dentro da Segunda Gaveta.
Sabiam eles, que no lado de fora, havia alguém que saberia dar-lhes o real valor.
Alguém que reconhece a importância de um ovo de páscoa, ou de uma barra de chocolate.
Mas nada podia eu fazer a não ser mergulhar a cara sob o travesseiro e bolar mais um plano mirabolante de resgate.
Aliás, foram milhares de planos colocados em práticas durante anos.
A maioria, sem sucesso.
Como se fosse um desenho do coiote tentando pegar o papa-léguas.
Mas um guerreiro medieval nunca desiste.
Com sua espada em punho, permanecia à espreita, sempre esperando o momento em que a Bruxa da Floresta Negra subiria em sua vassoura para ir ao colégio e que o Dragão da Caverna do Apocalipse sairia para o supermercado.
Neste momento, era hora de atacar.
Mas com cuidado, pois a Bruxa jamais saia de sua floresta sem deixar engatilhadas dezenas de armadilhas das mais terríveis.
A pior delas, o Famigerado Trinco Fechado pela Chave do Suplício.
Aí não tinha jeito.
Anos e anos se passaram e, aos poucos, o guerreiro medieval acabou vencido pelo desgaste do tempo.
Seu foco mudou.
E ao invés de tentar resgatar míseros chocolates, caramelos e ovos de páscoa que só murmuram e se lamentam, tratou de salvar lindas princesas indefesas presas na torre do castelo.
Só depois ele foi descobrir que elas também só murmuram e se lamentam.
Mas essa é outra história.
Hoje em dia, o guerreiro trava outras batalhas.
Casou-se com a mais bela de todas as princesas.
E mora de favor no castelo do rei.
Mas, apesar dos anos terem se passado, ele jamais esqueceu do sofrimento de seu povo trancafiado na Segunda Gaveta.
Sempre que a saudade bate, ele sabe onde encontra-los.
No Closet das Perdições, na Lata das Balinhas Multicores ou no Armários dos Prazeres Proibidos.
Todos estão lá (menos os ovos de páscoa, que retornam ano que vem).
Conversamos sobre a vida.
Lembramos dos velhos tempos.
Rimos e choramos juntos.
Como bons velhos amigos.
Sem murmúrios e sem lamentações.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...