26.9.07

Chorar de rir

Não me dou muito bem com enterros.
Descobri isso faz pouco tempo.
A primeira pessoa morta que vi ao vivo dentro de um caixão foi a mãe do Erick. Meu amigo de infância.
Eu tinha 18 anos.
Reunido com os a turma do prédio, decidimos ir ao cemitério.
Mais por solidariedade com o Erick do que propriamente pela mãe dele, que eu nem conhecia.
Tudo corria bem.
Dentro dos conformes.
Me detive alguns minutos observando o corpo da véia.
Milhares de coisas passando pela minha cabeça.
A principal delas: imagina se ela se mexe?
Qual seria a reação das pessoas?
Foi aí que começou meu drama.
Fui acometido de um ataque de riso incontrolável.
Cheguei a simular um ataque de choro, mas consegui piorar a situação.
Com medo de que minha reação fosse vista como falta de respeito (e certamente foi vista assim) corri apressado pra fora da capela onde o corpo era velado e passei alguns minutos gargalhando.
Você pode achar que isso aconteceu porque eu não tinha nenhuma relação com o morto.
Mas a mesma coisa aconteceu no enterro da minha avó.
Acho até que já comentei alguma coisa aqui no blog.
Estava ela deitada dentro do caixão sem as pernas.
Haviam cortado as pernas por causa da diabete.
Coçando o queixo, perguntei em voz alta: “Já que tá sem as pernas, por que não compraram só a metade do caixão?”.
Meu questionamento repleto de cautela econômica causou um certo constrangimento.
E o ataque de risos voltou a acontecer.
Incontrolável.
Um amigo psicólogo me disse que o riso incontido foi a forma encontrada por mim para extravasar uma emoção que não estava habituado a vivenciar.
Faz sentido.
Sabendo disso, até já participei de outros enterros onde consegui fazer prevalecer meu autocontrole.
Mas foi difícil.
Mas não pensem mal de mim.
Não o faço por falta de educação.
Apenas estou extravasando minha emoção.
E se, por um acaso, você gargalhar no meu enterro, fique à vontade.
Extravase sua alegria.

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