10.12.07

Concertos Comunitários

Não faz muito tempo, escrevi aqui sobre a insistência em participar de eventos gratuitos na cidade e ter que enfrentar todas as dificuldades que isso acarreta.
Pois tentando diminuir um pouco seu déficit de cultura, Priscila decidiu que iríamos assistir o Concerto Comunitário Zaffari com a Fafá de Belém.
De grátis, no Parcão.
Já imaginando o que viria pela frente, apenas suspirei.
Pois assim são os homens de valor.
Apenas suspiram e atendem aos desejos da mulher amada.
Por mais sacal que eles sejam.
Na casa de Luiz Nei e Juçá, faço tempo até o horário de sair para o show.
Lá pelas 18h30, começo a levantar acampamento.
Me despeço de Luiz Nei que, surpreso, fala:
- Tá maluco? Pra que sair essa hora? O show tá marcado para as 20h, mas não vai começar antes das 21h. Eles não vão começar o show com sol.
Olhei para Priscila.
Ela deu de ombros.
- Se quiserem ir, podem ir. Mas vocês serão os únicos e ainda vão ajudar na montagem do palco. Completou o Luiz Nei.
Atendendo a voz da experiência, esperamos até às 19h15 para sairmos.
Já na chegada no Parcão, a dificuldade para estacionar.
Deixamos o carro lá perto da Ipiranga com a Silva Só e fomos caminhando.
Chegando no Parcão, a dificuldade para encontrar o lugar do show.
Percorremos todo o Parcão e nada.
Depois descobrimos que seria naquele campo de futebol que fica do outro lado da Goethe, cruzando pela passarela.
Aliás, o palco já estava montado. Não precisamos ajudar.
Chegando lá, deparamos com aproximadamente 180 mil pessoas.
Foi aí que lembrei que o show era de graça.
E de graça, até injeção na testa.
Aposto que 70% das pessoas não tinham nem idéia do que ia acontecer ali.
Estavam de passagem, viram um palco e algumas cadeiras e decidiram sentar.
Só pelo fato de ser de graça.
Umas meninas distribuíam copinhos de água.
De grátis!
Imaginem a fila.
As pessoas não tinham sede.
Apenas pegavam os copinhos porque eram de presente.
Isso sem falar no banheiro químico colocado no local.
Uma fila de 500 metros.
Só para usar o banheiro químico.
Poder chegar em casa e dizer: “hoje usei aquele tal de banheiro químico! Coisa mais linda!”
Se tivessem distribuindo supositórios, as pessoas trocariam soco para garantir pelo menos uma cartela.
E enfiariam no cu ali mesmo.
Conseguimos um lugarzinho apertado, no meio do povo, lá atrás e de pé.
A nossa frente, um mar de gente.
Todas sentadas em cadeiras.
Não me agradava a idéia de ficar duas horas de pé pra ver a orquestra da PUC e a Fafá de Belém.
Apenas suspirei.
Pois assim são os homens...ah, deixa pra lá.
A idéia também não agradava Priscila que passou pelo menos 15 minutos xingando Luiz Nei repetindo que deveríamos ter saído mais cedo de casa.
Iniciado o concerto, procurei direcionar minha atenção para outras coisas mais divertidas para não pegar no sono.
No final de cada música, exatamente no meio da multidão sentada, uma gordinha levantava sozinha e aplaudia com entusiasmo.
No final da primeira música ela levantou.
Enquanto aplaudia, olhava para os lados para ver se alguém também havia se levantado para aplaudir.
Ninguém.
Alertei a Priscila para prestar atenção.
Uma, duas, três, quatro vezes.
A gordinha levantava sozinha.
Segurei meu ímpeto de me esgueirar até lá e dar uma biaba naquela orelha.
Na 34ª vez, a gordinha desistiu.
Não ficou de pé para aplaudir.
Apenas levantou os braços e passou a aplaudir em cima da cabeça.
Pobrezinha.
Nisso, notei que do outro lado da Priscila estava de pé a mulher mais feia de Porto Alegre.
Daquelas que só podemos ver pagando ingresso.
A tia sósia do Galeão Cumbica (caaaalllllma cocada!).
Pois ela foi alvo do meu divertimento pelo menos até a entrada da Fafá de Belém.
Quando a Fafá entrou, toda de vermelho, vermelhou no curral!
Tentei acompanhar todas as músicas fazendo com que minha voz chegasse aos ouvidos dela, mas meu ímpeto artístico era abruptamente cortado por beliscões.
Apenas suspirei.
Pois assim...
Agüentei até o final.
Árduas duas horas de espetáculo.
Pés doendo, dor nas costas.
Mais uma longa caminhada até o carro.
Quando finalmente cheguei ao veículo, abri a porta e sentei.
Priscila ao meu lado murmurou:
- Tô com fome.

Apenas suspirei...

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