25.2.08

As almôndegas do Juninho

O Júnior foi uma das pessoas mais doces que conheci na vida.
Era meu colega na primeira série.
Pesava quase 100 quilos.
Isso na primeira série!
Imagina uma criança com sete ou oito anos pesando quase 100 quilos?
Era uma criança introvertida, porém sempre disposto a ajudar os outros.
Não precisa nem dizer que, pelo peso, era o alvo de todas as brincadeiras da turma.
Vítima da crueldade comum nas crianças.
E o Juninho, que azar, tinha tetinha.
A principal brincadeira era apertar as tetinhas do Juninho.
Um dia apertaram tanto que jorrou sangue de uma delas.
Ao invés de leite, jorrou sangue.
Apesar disso, o Juninho não reagia.
Ele nunca reagia.
Não porque não tinha força. Muito pelo contrário.
O Juninho era um touro.
Podia matar um de seus agressores com um tapa.
Mas não era da índole do Juninho reagir.
Não era da índole do Juninho agredir as pessoas.
Eu tinha pena dele.
Pena mesclada com gratidão.
Graças a ele, eu era o segundo mais gordinho da sala. Portanto, sendo poupado.
Por isso não participava nem compactuava com as torturas diárias.
Bom, toda esta introdução foi para contar uma história que aconteceu com o Juninho.
Além de todos os problemas, o Juninho tinha azar.
Tudo dava errado com ele.
Uma vez nossa turma participou de um passeio até a Vila Oliva.
Vila Oliva é um retiro localizado na cidade de Salvador do Sul, perto de Caxias, que pertence ao colégio Anchieta.
Era uma aventura sem precedentes.
O ônibus partia cedo do pátio do colégio.
Juninho chegou faceiro, trazendo sua mochila.
O ônibus não tinha nem deixado a BR 116 e Juninho se preparava para fazer seu lanche pós café da manhã.
De dentro da mochila tirou um “tapeuer” com quatro almôndegas aceboladas.
Sobra do jantar, segundo ele.
Um cheiro horrível!
Mesmo alertado pelos colegas para que não ingerisse tal alimento, Juninho mandou ver.
E ainda lambeu o caldo no fundo do pote.
Evidente que o resultado não poderia ser dos melhores.
Na subida da Serra, Juninho começou a passar mal.
Uma dor de barriga terrível fez o gordo suar.
Ele gemia baixinho enquanto se contorcia sobre a poltrona.
Foi então que descobrimos que o ônibus não tinha banheiro.
Em pânico e aos berros, alunos e professores fizeram o ônibus parar no acostamento.
Juninho desceu quase em câmera lenta.
Qualquer movimento mais brusco poderia ativar a evacuação antes da hora.
Na mão esquerda, segurava um maço de folhas de caderno.
Ninguém havia pensado em levar papel higiênico.
Ao contornar o ônibus para procurar um lugar ideal, Juninho percebeu que o terreno ao lado da estrada era um barranco íngreme em meio ao matagal.
Trocando as pernas, Juninho foi descendo se segurando nos arbustos.
Ele já não agüentava mais.
Achou um local para apoiar os pés, juntou um tufo de arbusto e agarrou firme ficando de cócoras.
Amontoados nas janelas laterais do ônibus, (a professora não nos deixou descer) conseguíamos apenas ver a cabeça do Juninho.
Aquele rostinho rechonchudo, vermelho.
Fazendo força.
Força pra se segurar, pois pra cagar nem precisava.
De repente, a cabeça do Juninho sumiu e um berro ecoou no meio do matagal.
Nos entreolhamos em silêncio.
Professores e o motorista correram barranco abaixo.
Ninguém podia acreditar.
O tufo de arbusto onde Juninho segurava todo seu peso arrebentou.
O gordo rolou de costas barranco abaixo e só foi parar numa árvore.
O problema não foram os arranhões e os espinhos.
Juninho rolou por cima da diarréia que acabara de fazer.
Uma listra de merda cortava suas costas de cima a baixo passando pela cabeça e acabando na testa.
Parecia um gambá.
Enquanto alguns professores tentavam limpar o Juninho do lado de fora, a diretora entrou no ônibus e falou em tom grave:
- Não quero ouvir nenhuma brincadeira. Nenhuma risadinha.
Pra que?
Juninho teve que ouvir piadinhas pelo menos até deixar o colégio e ingressar na faculdade.
Grande figura, o Juninho.
Nunca mais vi.
Assim como nunca mais comi almôndegas aceboladas.

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