20.6.08

Vale a pena ler de novo (1)

TRAUMA DE GUARDA-CHUVA (publicado 30/05/2006)

Hoje levantei de manhã cedo e encontrei um guarda-chuva pendurado no trinco da porta.
Num primeiro momento pensei: “que amor esse zelo de mãe”.
Mas logo esse sentimento meigo me fez regredir no tempo pelo menos uns 25 anos. Lá pela segunda e terceira série quando eu era a chacota da turma porque a mãe fazia questão de ir lá na aula me entregar um guarda-chuva quando começava a chover.
Sentava na fila da janela e entrava em pânico quando via cair as primeiras gotículas de chuva.
Os pingos também alertavam os colegas e não demorava muito pra alguém gritar lá no fundão:
- Lá vem a mamãe com o guarda-chuva!
E todos riam.
Dito e feito.
Em 10 minutos, a diretora aparecia na porta segurando o objeto do meu desespero.
E todos riam.
Até ela e a professora.
Minha vontade era arremessar aquele troço pela janela e só de birra voltava pra casa encharcado com o guarda-chuva enfiado no fundo da mochila.
Foram uns três longos anos assim até que decidi compartilhar com a mãe minha insatisfação com aquele gesto de dedicação e carinho.
Ela mostrou-se piedosa com a minha dor e perguntou:
- Por que não me disse isso antes, meu filho?
Realmente não sabia o motivo daquele silêncio e conformidade.
Hoje minha mãe acordará de manhã e encontrará um guarda-chuva pendurado no trinco da porta.

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