28.8.08

Mais Recife

Em vários pontos da orla da praia de Boa Viagem podemos avistar placas como esta da foto.
Conversa vai conversa vem com o taxista, comento minha temeridade em entrar no mar.
No que ele responde com o máximo de sotaque nordestino que você possa imaginar:
- Não se avexe, não! Tubarão não come gente. Quando ele se dá conta que é carne humana, ele vomita.

Ufa!

26.8.08

Porcoooooo!!!

Hoje a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras completa 94 anos de vida.
Com todo o sentimento que tenho no meu coraçãozinho, desejo ao maravilhoso clube de Parque Antárctica os votos de sucesso e de muitas conquistas.
Quanta felicidade!

Dá-lhe Verdão!!

25.8.08

Olinda e Aflitos: a saga



Já consegui descansar depois de uma viagem desgastante que começou em Recife passando 30 minutos da meia-noite de hoje e terminou em Porto Alegre às 7h30 da manhã, com escalas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Já não sou muito de dormir em avião. Agora, quando este é da Gol, torna-se impossível.

Mas o Brasil tem estas peculiaridades por suas dimensões continentais (adoro essa expressão).
Ontem estava tomando água de coco na beira da praia sob um calor de 36 graus e vendo as meninas em seus minúsculos biquínis e, num piscar de olhos, hoje volto a curtir o friozinho do inverno gaúcho.
Confesso que prefiro aqui. Juro.



Situando o leitor um pouco no tempo, minha viagem começou na última quinta-feira com a ida ao Rio de Janeiro para cobrir a partida contra o Flamengo.
O resultado dentro de campo acabou não sendo o esperado, mas isso é só um detalhe.
De positivo mesmo ficou a emoção de pisar no gramado do Maracanã, o pai de todos os estádios.
Tinha estado ali há 26 anos como torcedor, mas minhas únicas recordações se resumiam a alguns flashes daquela final de Brasileiro de 1982 contra o Flamengo.
O Maracanã está impecável.
Certamente graças àquela remodelação para o Pan do ano passado.
As instalações para a imprensa e as facilidades para trabalhar são tudo de bom.
O difícil é desligar a atenção de toda essa maravilha e ficar ligado só no jogo e no trabalho.
Juro que tentei.



Após a derrota, o clima ficou pesado para a viagem a Recife.
Cheguei até a abrir mão do desejo de conhecer o nordeste em troca de estar outra vez nos braços da minha amada.
Mas não tinha volta: já que estava no inferno, a única opção era abraçar o capeta.
Decidi que faria da viagem a Pernambuco um passeio inesquecível apesar de todo o clima negativo decorrente da derrota de quinta.
Tratei de aproveitar da melhor forma possível as horas livres.
Sabe lá Deus quando vou ter a oportunidade de voltar a Recife outra vez.
Sendo assim, enquanto meu chefe aproveitava a tarde para dormir no quarto do hotel após a nossa chegada, tratei de pegar um táxi até o centro histórico da capital pernambucana.



Dei uma boa caminhada por ali aproveitando as últimas horas de sol.
Apesar da beleza de alguns prédios antigos, igrejas e do Marco Zero, o que chama mais a atenção é a sujeira e o cheiro forte de xixi.
Perambulei por pequenas vielas com dezenas de bares de qualidade duvidosa, mesinhas nas calçadas, gente bebendo e muita música nordestina a todo o volume.
Tentei achar um lugar para tomar o tal suco de cajá que me indicou o Gabriel, mas não encontrei. Mesmo abrindo mão do meu senso de higiene.
Quando a noite caiu e meu feeling apontou que ali não mais seria um lugar para um turista, retornei para o hotel.



Era hora de aproveitar um pouco as belezas da praia da Boa Viagem.
Sim, nosso hotel ficava na avenida beira-mar.
O vento forte litorâneo amenizava o calor da noite.
Dei uma caminhada pelo calçadão repleto de gente e me sentei naqueles tradicionais quiosques à beira-mar.
Comi um maravilhoso sanduíche natural de ricota e chester com uma batida de guaraná da Amazônia feita com leite, pó de amendoim, banana e trocentas outras coisas.
Posso dizer que foi uma experiência extraordinária. Tanto que voltei no dia seguinte para repetir a dose.



Por falar em dia seguinte, foi no domingo que tomei a decisão mais acertada da viagem.
Fui conhecer Olinda.
Não tinha muita noção da distância de Olinda para Recife e nem quanto tempo demoraria por lá.
Vai que meu chefe precisa de alguma coisa e eu, que fui lá pra trabalhar, estou fazendo passeios turísticos.
Mas, como eu já havia decidido, tratei de deixar o trabalho um pouco de lado. Não vale a pena ficar se matando e não ter um mínimo reconhecimento, muito pelo contrário.
Foi assim que, às 6h da manhã de domingo, seguia de táxi rumo à Olinda, Patrimônio Cultural da Humanidade.
Consegui a companhia do Renato, nosso operador técnico da Grêmio Rádio e colega de quarto, que se propôs a dividir o valor da corrida antecipadamente combinada em R$ 90,00 com o motorista. Dentro deste preço, ele nos mostraria toda a cidade, nos esperaria o tempo que quiséssemos ficar lá e nos traria de volta, evidentemente.
Com o trânsito praticamente inexistente àquela hora, não demoramos pra chegar à cidade. É mais perto do que ir de Porto Alegre à Canoas.



O taxista começou seu trajeto turístico andando lentamente pelas estreitas ruazinhas da cidade e parando em cada ponto de interesse para que pudéssemos tirar fotos.
O sol forte que surgia no céu azul e o silêncio da cidade com seus casebres coloridos que recém amanhecia davam um ar ainda mais especial ao passeio (que linda essa frase).
No alto das ladeiras de Olinda, uma visão extraordinária do mar azul esverdeado e a cidade de Recife que ainda dormia.
Ladeira abaixo todo o santo ajuda. Dispensamos o táxi e decidimos seguir trajeto a pé nos encontrando no final dele.
Lentamente, tratamos de percorrer aquelas ruas de pedra com o mesmo calçamento de centenas de anos atrás.



O silêncio era quebrado apenas pelos sinos das antigas igrejas.
A cidade começava a acordar.
E quem começava a acordar também eram os guias turísticos.
Um deles nos achou em uma das dezenas de esquinas e seguiu ao nosso lado explicando minuciosamente a história de cada prédio e cada rua.
No momento tive o impulso de dispensar a criatura pensando no quanto teria que desembolsar no final da cortesia da companhia, mas acabei cedendo tendo em vista as informações interessantes que nos eram passadas por ele.
Foi assim que seguimos nossa caminhada esmiuçando ruazinha por ruazinha e aprendendo um pouco sobre a história daquela cidade.
Com direito a uma parada na casa de Alceu Valença que, provavelmente, dormia.
Gedeon (era o nome do guia) fez questão de mostrar a cobertura onde o cantor construíra um banheiro ao ar livre para cagar vendo a vista do mar.
Cosa linda!
No final, o prestativo rapaz acabou levando R$ 20,00 de cada um.
Valeu o investimento.
Olinda faz jus ao nome.




De volta ao hotel lá pelas 9h, ainda tinha uma boa parte da manhã livre ainda que o chefe já estivesse acordado.
Ele preferiu ficar no quarto vendo a Fórmula 1 pela TV.
Eu segui para o calçadão da praia que já estava tomada àquela hora.
Pé descalços, dei uma boa caminhada pela areia e curti um pouco o mar ainda que só até o joelho.
Cheguei até a pensar em tomar um sol e experimentar um tal de Caldinho da Marlene que todo mundo comprava, mas desisti da idéia imaginando o café da manhã do hotel.
Parei de imaginar e fui lá conferir.
E, realmente, o café merece um depoimento a parte: pela primeira vez na vida comi caju.
Meu único contato com caju até então era apenas através dos sucos Tang e Maguary.
Aliás, o caldo que sai dele quando a gente morde tem exatamente o mesmo gosto destes sucos (parabéns ao pessoal da Tang e da Maguary pela qualidade do produto).
No canto do saguão onde serviam o café, tinha uma tapioqueira.
Sim, uma mulher que fazia tapioca na hora.
Chegamos a ficar amigos de tanta tapioca que ela preparou pra mim.
Mas a melhor era a tapioca de coco com doce de leite.
Jesus, que estrago.



Caracas!
Já escrevi tudo isso e ainda nem mencionei o jogo contra o Náutico.
Pois é.
Razão maior de minha presença naquele local.
Então vamos a ele.
Minha chegada ao inesquecível Estádio dos Aflitos, palco do maior jogo da história do Grêmio, não foi das melhores. Havia esquecido minha credencial no hotel.
Sorte que chegamos às 15h e o jogo só começava às 18h.
Mas existem males que vêm para bem.
Voltei de táxi até o hotel e retornei para os Aflitos.
Antes disso, tive a brilhante idéia de solicitar ao motorista que me levasse ao estádio do Arruda, do Santa Cruz.
A equipe da terceira divisão estava jogando contra o Campinense naquele exato momento. Não deu pra entrar, mas só passar ao lado, ver toda a movimentação e conhecer mais um estádio diferente para minha lista, já valeu a pena.
Bom, depois disso tudo, passavam das 16h quando pisei no gramado do estádio dos Aflitos.



Nunca imaginei um dia estar ali.
Me detive encostado ao poste da goleira onde Galatto fizera a defesa mais importante da história do Grêmio naquele 26 de novembro de 2005. A cobrança de pênalti que levaria o Tricolor ao fundo do poço parou na perna do goleiro gremista.
Lentamente, cruzei o gramado até a outra goleira.
A mesma onde Anderson marcou o gol da vitória depois do time ter tido quatro jogadores expulsos.
Não precisou muito para ter um filme passando pela cabeça e as lembranças de um sofrimento que parecia não ter fim.
Revivi em poucos minutos toda a Batalha dos Aflitos.

(pausa para respirar).

Chega de tanta bichice.
Não são só gremistas que lêem este blog.
Quem não é já está enfadado de tanto sentimentalismo futebolístico.

Bom, o jogo em si foi terrível.
Nada daquele Grêmio que meteu 7 a 1 no Figueirense em Floripa ou 4 a 0 no Atlético Mineiro em BH.
Muito pelo contrário. A derrota era questão de tempo.
E mais uma derrota seria trágico.
Principalmente pra mim que, como já disse antes, seria o culpado.
Sim. Euzinho seria o culpado.
Afinal, eu não estava conseguindo dominar a bola naquele gramado irregular e não acertava nenhum lançamento.
O Náutico fez 1 a 0 e dominava o jogo.
Perdeu chances para ampliar.
O jogo já estava no seu final.
O juiz deu quatro minutos de desconto.
O Grêmio tem uma falta que Tcheco vai cobrar pra dentro da área do Náutico.
A torcida pernambucana comemora e pede o final do jogo.
Nosso goleiro corre pra área para tentar um milagroso gol de cabeça ou qualquer outra coisa sobrenatural.
Atrás daquele gol, cabisbaixo e com a mão no queixo, observo a cena e penso com meus botões: “em 90 minutos de jogo o Grêmio não deu um chute a gol e não teve uma chance para marcar. Por que marcaria no último segundo dos descontos?”.
Pois não é que o zagueiro Réver pega uma sobra depois de uma confusão na área e marca o gol?
Acho que estava tão abobalhado com a situação que não consegui nem comemorar.
Pode parecer bobagem, mas aquele golzinho pra mim teve mais importância que o gol do Renato na final do Mundial de 1983.
Se a derrota da última quinta contra o Flamengo foi culpa minha, se eu não vinha jogando bem, se vinha errando jogadas fáceis, pelo menos fui eu que fiz esse gol no final.



Após o jogo, aliviado e feliz, só deu tempo para tomar um banho no hotel e seguir para o aeroporto de Guararapes dando início a desgastante viagem de volta.

Sinceramente não sei se voltarei a viajar com o Grêmio e nem sei se quero.
Mas uma coisa é certa: vale a pena conhecer Olinda.

22.8.08

Flamengo 2 x 1 Grêmio

Pois é...
As coisas começaram mal por aqui.
Até cheguei a pensar que poderíamos sair com o empate, mas aquele gol no final foi pra matar.
Clima horrível.
Pior é acharem que eu sou o culpado.
Sim, tem gente que acha.
Vai ver que é porque eu perdi um gol feito ou deixei o Marcelinho Paraíba fazer a festa na defesa.
É só me darem um fardamento que eu entro.
E prometo que o Grêmio não perde pro Náutico.
Agora, com um microfone na mão e atrás do gol, não tem nada que eu possa fazer.

O que valeu mesmo foi pisar no gramado do Maracanã.
Emoção indescritível pra quem ama o futebol.

Quando der coloco as fotos.
Viagem para Recife no sábado.

20.8.08

Fortes emoções


Na manhã desta quinta-feira estarei embarcando rumo ao Rio de Janeiro.
De noite, volto ao Maracanã depois de 26 anos.
Estive ao lado de Luiz Nei na final do Campeonato Brasileiro de 1982 entre Flamengo e Grêmio.
Um público com mais de 150 mil pessoas. Um dos maiores da história do antigo estádio.
Tenho poucas lembranças daquele dia em que fomos do aeroporto para o estádio e do estádio para o aeroporto.
Vai ser muito interessante pisar no gramado pela primeira vez.
Ver aquele estádio lotado e estar trabalhando atrás de uma das goleiras.
Fortes emoções.
Mas nada disso vai adiantar se não conseguir um resultado positivo.
E já incluo neste positivo um empatezinho.
Após o jogo, permaneço no Rio até sábado quando embarco para Recife.
Minha primeira vez em território nordestino.
Espero poder conhecer alguma coisa, mas o objetivo mesmo é acompanhar Grêmio e Náutico, domingo, no lendário estádio dos Aflitos.
Mais uma vez, fortes emoções.
Quem quiser compartilhar, pode acompanhar as transmissões pela Grêmio Rádio.
Que o meu pé seja realmente quente.
Caso contrário, viagem outra vez só a passeio.

Maiores informações, quando eu voltar na segunda-feira.

19.8.08

$$$

Antes de viajar para Holanda, a Governadora Yeda Crusius aproveitou para sancionar a lei que aumenta seu próprio salário em 143%.
De R$ 7,1 mil ele passa para 17,3 mil.
Diz ela que é para corrigir uma distorção histórica.
Aumento também para o Vice e os secretários que passam a receber R$ 11,5 mil.

- Mas o salário dela é o menor do país entre os governadores.
- Tem prefeito que ganha mais que ela.
- Um xucro metalúrgico também ganha mais que ela.

Só pra constar.

18.8.08

Ai...


Popozinho na chón

Sentado no sofá da sala, acompanho atentamente uma matéria sobre o fracasso de Diego Hypólito nas olimpíadas.
Priscila comenta enquanto se levanta para ir ao quarto:
- Muito feio isso que você está fazendo, Má.
- Isso o que???
- Esse seu sorrisinho na cara.

Tentei ficar sério.
Mas foi mais forte que eu.

15.8.08

Alcachofras e afins

Outro dia conversando com minha amiga Mônica pelo MSN, escrevi que ela precisava de uma bússola.
Foi neste momento que percebi que, nos meus 36 anos de vida, jamais havia escrito a palavra “bússola”.
Não é impressionante?
Uma palavra tão comum, tão simplória.
Evidente que existem palavras técnicas que jamais iremos escrever na vida como “esternocleidomastóideo” ou “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico” (que é a maior palavra da lingua portuguesa).
O interessante são mesmo as palavras mais comuns e que nunca tivemos a oportunidade de escrever.
“Alcachofra”.
Esta é uma palavra que eu nunca havia escrito.
Por qual motivo deveria ter escrito “alcachofra” na minha vida?
Aliás, duvido que a maioria das pessoas que leem este blog tenha escrito a palavra “alcachofra”.
Este é só um exemplo.
Se me deixarem aqui por mais 10 minutos sou capaz de colocar mais uns 200 exempos de palavras que nunca escrevi na vida.
Bom, se isso acontecesse, deixariam de ser palavras que nunca escrevi na vida, não é mesmo?
Então deixa assim.

Sim. Hoje vai ser um longo dia.

Perdido

Consegui a proeza de sair de casa sem celular e sem relógio.
Vocês não têm idéia do que é sair de casa sem o celular e o relógio.
A pessoa fica completamente desorientada.
Chegou um momento do dia em que eu não sabia que horas eram, onde eu estava e quem eu era.
Foi perturbador.

13.8.08

Ninguém resiste

Depois de Alexandre Pato...


12.8.08

Longe. Muito longe

Indo contra a tendência mundial das construções das grandes arenas esportivas, onde o torcedor fica cada vez mais perto do campo (ou da quadra) tendo ainda mais influência e participação nos espetáculos, os estádios e quadras das Olimpíadas de Pequim colocam o espectador há quilômetros de distância do evento.
Nem mesmo o vôlei de praia escapou
Prestem atenção.
Deve haver uma explicação, mas prefiro nem dissertar sobre isso.

Vendedores ambulante de binóculos agradecem.

8.8.08

A maldição do museu

Bira trabalhava no museu do Grêmio, aqui no Estádio Olímpico.
Era um tipo de “faz tudo”.
Foi encontrado morto dentro do museu.
Katya era telefonista do museu do Grêmio.
Morreu depois de sentir fortes dores na barriga.
Não tinha 25 anos.
Seu Raimundo Bordin era um historiador do Grêmio e trabalhava de forma voluntária no museu tricolor.
Morreu atropelado na frente do Olímpico quando se dirigia para mais um dia de trabalho.
Hoje morreu a Isabel, que trabalhava no Departamento de Futebol (mas que já trabalhou no museu do Grêmo).
A menina que fazia a limpeza no museu do Grêmio foi internada no manicômio na semana passada depois de uma crise psicótica.
Sim, estou com medo de entrar no museu do Grêmio.
Ninguém mandou ficar mexendo com mortos...
Quem será o próximo?

6.8.08

Espírito Olímpico

Os Jogos Olímpicos nem começaram e eu já estou de saco cheio de tudo isso.
Quero que os chineses vão pro inferno.
Quero que o Brasil seja eliminado em todas as provas.

5.8.08

Dez minutos no carro com Duda e Mártin

Domingo à noite.
Crianças no carro indo pra casa.
Papo cabeça rolando.
Começa o Mártin, quatro anos, sentado no banco de trás:
- Pai, como é um cérebro?
- Hum. Parece um miolo de pão.
- E como eles são fabricados?
- Eles não são fabricados, Mártin. A gente já nasce com ele dentro da cabeça.
- Ah bom. E qual a cor dele?
- Acho que é branco.
Duda quebra o silêncio e começa a participar:
- Pai, se a gente já nasce com o cérebro dentro da cabeça, como é que ele vai parar lá?
- É assim: a mamãe tem uma sementinha dentro da barriga. Os dias vão passando, e essa sementinha vai se transformando em um nenê. Começa pequeninha. Depois vai nascendo os bracinhos, as perninhas, os dedinhos. Depois vão se formando as costelas, nasce a pele, o cérebro também. Até que, depois de nove meses, o nenê está pronto pra nascer. Entendeu, Duda?
- Entendi. Quer dizer que eu era uma sementinha?
- Sim. Tu e o Mártin eram uma sementinha.
- Estranho. Eu não me lembro.
- Pois é. Eu também não me lembro de quando eu era uma sementinha. Mas acho que era bom ficar lá dentro da barriga da mãe.
Mártin pede a palavra:
- Pai, o que a gente faz dentro da barriga?
- Não faz nada, Mártin. Fica lá descansando, mexendo as perninhas e os bracinhos. Nadando na água bem quentinha.
Acho que ele ficou surpreso com a informação.
- A gente fica na água?
- Sim. A gente fica dentro de uma bolsa de água bem quentinha.
- Nossa! E lá não tem armário nem geladeira?
Pausa para riso interno.
- Pra que tu queres armário e geladeira dentro da barriga?
- Pra guardar as roupas e comer, ué!
- Na barriga não precisa de roupa. E o nenê come o que a mãe comer.
Silêncio no carro.
Fala a Duda:
- E como que o nenê vai comer embaixo da água?
- Ele come pelo cordão umbilical.
- Ah! Eu sei. É aquela corda que o médico corta quando o nenê nasce.
- Isso mesmo, filha.
- Deve ser um saco. Não sente o gosto da comida.
- É verdade. Deve ser estranho.
Mais um minuto de silêncio.
Observo os dois pelo espelho retrovisor.
Mais uma vez pergunta a Duda:
- Pai. Como que a sementinha vai parar na barriga da mãe?
- O papai que coloca.
Mais silêncio.
Juro por Deus que ela não perguntou como.
Aguardo um passeio mais longo de carro com eles.
Vai ser no mínimo interessante.

4.8.08

Eu tenho um anjo

Nunca fui muito fã da Martha Medeiros.
Ainda assim, procuro sempre ler o que ela escreve, pois volta e meia aparecem textos bons.
Como o que ela escreveu na Zero Hora do último domingo falando sobre as diversas formas da aparição de Deus na vida dela.
O texto fala que “Deus escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente. Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós” e, no final, questiona:
Quando Deus aparece pra você?”.
Não acredito em Deus (uia! Frase forte).
Pelo menos não neste Deus estereotipado de barba que fica numa nuvem atirando raio na gente.
Talvez alguma força energética superior que norteia nosso caminho e que nos tenta mostrar o certo e o errado. Cabendo a nós decidirmos qual seguir.
São pequenos sinais que recebemos diariamente.
Tendo em vista este grau de incredulidade que me caracteriza, sempre tive dificuldade para perceber tais sinais.
Não fosse isso, não teria feito tanta cagada na vida.
E foi exatamente no momento em que eu mais precisava, quando minha vida necessitava urgentemente de um rumo certo, que Deus apareceu pra mim.
Foi naquele final de janeiro do ano passado.
E apareceu em forma de anjo.
Um lindo anjo de olhos azuis e cabelos cor de fogo.
Chegou para tranqüilizar meu coração e para me mostrar o caminho a ser seguido.
Mas não só me mostrou como também permaneceu ao meu lado para me guiar.
Vai que eu não conseguisse encontrar sozinho?
E não conseguiria mesmo.
Pois é neste anjo que Deus mandou pra mim que eu me apoio para caminhar.
E é para este anjo que eu dedico todo o meu amor, o meu carinho e a minha gratidão.
Este anjo me acorda todas as manhãs com um beijo doce.
Este anjo que me protege com sua mão sobre a minha perna enquanto eu dirijo.
Este anjo tem sempre uma palavra de carinho nos momentos difíceis...ou um abraço quando mais preciso. Mesmo sem eu pedir. Afinal é um anjo...e anjo sabe tudo.
Só um anjo conseguiria me fazer sentir melhor do que eu realmente sou.
Conseguiria me fazer maior do que eu realmente sou.
Conseguiria me fazer acreditar que tudo é possível.
E como não o seria tendo um anjo de companheiro?
Só tem um problema.
Estou dependente deste anjo.
Só vivo porque ele existe.
E dele dependerei até o final dos meus dias.
Quando, finalmente, poderia agradecer a Deus...pessoalmente.

Obrigado Senhoooorrrr!

1.8.08

Eu disse que acreditassem. Eu pedi que acreditassem.

Armindo Antônio Ranzolin era o maior narrador de futebol do Rio Grande do Sul. Cresci escutando suas transmissões. Primeiro pela Rádio Guaíba e depois pela rádio Gaúcha.
Narrou com emoção os maiores títulos do Grêmio: as Libertadores de 1983 e de 1995 e o Mundial do Japão. Cheguei a decorar suas falas de tanto escutar os disquinhos do Grêmio Campeão: "Eu disse que acreditassem! Eu pedi que acreditassem! Eu nunca deixei de acreditar que o Grêmio ia ser campeão da América, hoje, esta noite, em Porto Alegre!".
O inesquecível relato do gol de César, contra o Peñarol, ainda ecoa pela minha memória.
Cosa linda!
Ranzolin abandonou as transmissões esportivas após a Copa do Mundo da França, em 1998.
Seguiu um tempo como comentarista, porém, aos poucos, foi deixando os microfones sem ninguém notar.
Na última segunda-feira, na festa dos 25 anos da conquista da primeira Libertadores da América, o nome de Ranzolin não estava na lista dos convidados mesmo a imprensa sendo homenageada na ocasião.
Acabei descobrindo que Ranzolin estava sofrendo do mal de Alzheimer.
Não desisti.
Liguei para a Rádio Gaúcha e consegui que sua antiga secretária fizesse contato com ele fazendo o convite para a festa. Ela me prometeu que, se houvesse interesse, ele me retornaria a ligação.
Passaram-se algumas horas quando o telefone tocou na sala de imprensa.
Rafael Pfeiffer atendeu e com cara de assustado me chamou: “É pra ti. O Ranzolin”.
Gelei.
A maior voz do esporte brasileiro estava sendo dirigida para mim. Exclusivamente. E ainda falou meu nome.
A sensação é como se o Cid Moreira estivesse no outro lado da linha.
Pois Ranzolin confirmou sua presença.
Já na festa, foi chamado para compor a ilustre bancada com Paulo Odone e Fábio Koff.
Não falou nenhuma vez.
Apenas acompanhou a homenagem aos ex-jogadores sorrindo e cumprimentando um por um.
Após o término da cerimônia e um animado brinde, corri até ele com microfone em punho para realizar o que imaginei poder ser uma das maiores entrevistas da minha vida.
Já na primeira pergunta notei que a realidade seria bem diferente.
Meio torto, Ranzolin tentou me responder com frases desconexas.
Cheguei a imaginar que pudesse ter bebido um pouco demais, mas isso não era possível, pois os convidados só haviam recebido apenas uma taça de champanha até então.
Ainda que estivesse ao vivo, não me abalei com a situação.
Me lembrei de uma vez, quando trabalhava na TV Guaíba e entrevistava pessoas na Rua da Praia, consegui fazer uma entrevista histórica com um mudo.
Isso mesmo. Barrei um senhor no centro e perguntei se podia gravar uma opinião dele para um programa para o qual eu trabalhava.
Ele consentiu com a cabeça.
Após minha pergunta, desandou a falar como um retardado:
- Hum! Hum, hum, hum, huuuuum, huuuum, hum, hum!
Com cara de tacho, esperei ele terminar o raciocínio e agradeci.
Fiquei tão estupefato com a entrevista que acabei colocando no programa da noite.
Lógico que isso me rendeu uma advertência do chefe, mas foi divertido.
Bom, voltamos ao Ranzolin.
Imaginei que a primeira resposta tinha sido apenas um momento de bobeira e que o velho e bom Ranzolin voltaria na pergunta seguinte.
Vou mexer com a emoção dele. Quero ver escorrer lágrimas destes olhos (pensei eu).
- Então, Ranzolin, conte para os telespectadores, como foi a narração daquele histórico gol do César que deu ao Grêmio o título de campeão da América em 1983?
No que ele respondeu:
- Foi mais ou menos assim: eu narrei, narrei, narrei...e quando a bola entrou eu gritei gol.
Silêncio absoluto.
Esperei ele continuar, mas ele não continuou.
Ficou ali me fitando nos olhos e esperando outra pergunta.
Não fiz.
Acho que me emocionei com a genialidade da resposta.
Tão profunda.
Pensei comigo mesmo: "mestre é mestre!"
Este foi meu primeiro contato ao vivo com o maior narrador de futebol do Rio Grande do Sul.

Juro que vou achar onde andam meus disquinhos do Grêmo campeão.
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