1.8.08

Eu disse que acreditassem. Eu pedi que acreditassem.

Armindo Antônio Ranzolin era o maior narrador de futebol do Rio Grande do Sul. Cresci escutando suas transmissões. Primeiro pela Rádio Guaíba e depois pela rádio Gaúcha.
Narrou com emoção os maiores títulos do Grêmio: as Libertadores de 1983 e de 1995 e o Mundial do Japão. Cheguei a decorar suas falas de tanto escutar os disquinhos do Grêmio Campeão: "Eu disse que acreditassem! Eu pedi que acreditassem! Eu nunca deixei de acreditar que o Grêmio ia ser campeão da América, hoje, esta noite, em Porto Alegre!".
O inesquecível relato do gol de César, contra o Peñarol, ainda ecoa pela minha memória.
Cosa linda!
Ranzolin abandonou as transmissões esportivas após a Copa do Mundo da França, em 1998.
Seguiu um tempo como comentarista, porém, aos poucos, foi deixando os microfones sem ninguém notar.
Na última segunda-feira, na festa dos 25 anos da conquista da primeira Libertadores da América, o nome de Ranzolin não estava na lista dos convidados mesmo a imprensa sendo homenageada na ocasião.
Acabei descobrindo que Ranzolin estava sofrendo do mal de Alzheimer.
Não desisti.
Liguei para a Rádio Gaúcha e consegui que sua antiga secretária fizesse contato com ele fazendo o convite para a festa. Ela me prometeu que, se houvesse interesse, ele me retornaria a ligação.
Passaram-se algumas horas quando o telefone tocou na sala de imprensa.
Rafael Pfeiffer atendeu e com cara de assustado me chamou: “É pra ti. O Ranzolin”.
Gelei.
A maior voz do esporte brasileiro estava sendo dirigida para mim. Exclusivamente. E ainda falou meu nome.
A sensação é como se o Cid Moreira estivesse no outro lado da linha.
Pois Ranzolin confirmou sua presença.
Já na festa, foi chamado para compor a ilustre bancada com Paulo Odone e Fábio Koff.
Não falou nenhuma vez.
Apenas acompanhou a homenagem aos ex-jogadores sorrindo e cumprimentando um por um.
Após o término da cerimônia e um animado brinde, corri até ele com microfone em punho para realizar o que imaginei poder ser uma das maiores entrevistas da minha vida.
Já na primeira pergunta notei que a realidade seria bem diferente.
Meio torto, Ranzolin tentou me responder com frases desconexas.
Cheguei a imaginar que pudesse ter bebido um pouco demais, mas isso não era possível, pois os convidados só haviam recebido apenas uma taça de champanha até então.
Ainda que estivesse ao vivo, não me abalei com a situação.
Me lembrei de uma vez, quando trabalhava na TV Guaíba e entrevistava pessoas na Rua da Praia, consegui fazer uma entrevista histórica com um mudo.
Isso mesmo. Barrei um senhor no centro e perguntei se podia gravar uma opinião dele para um programa para o qual eu trabalhava.
Ele consentiu com a cabeça.
Após minha pergunta, desandou a falar como um retardado:
- Hum! Hum, hum, hum, huuuuum, huuuum, hum, hum!
Com cara de tacho, esperei ele terminar o raciocínio e agradeci.
Fiquei tão estupefato com a entrevista que acabei colocando no programa da noite.
Lógico que isso me rendeu uma advertência do chefe, mas foi divertido.
Bom, voltamos ao Ranzolin.
Imaginei que a primeira resposta tinha sido apenas um momento de bobeira e que o velho e bom Ranzolin voltaria na pergunta seguinte.
Vou mexer com a emoção dele. Quero ver escorrer lágrimas destes olhos (pensei eu).
- Então, Ranzolin, conte para os telespectadores, como foi a narração daquele histórico gol do César que deu ao Grêmio o título de campeão da América em 1983?
No que ele respondeu:
- Foi mais ou menos assim: eu narrei, narrei, narrei...e quando a bola entrou eu gritei gol.
Silêncio absoluto.
Esperei ele continuar, mas ele não continuou.
Ficou ali me fitando nos olhos e esperando outra pergunta.
Não fiz.
Acho que me emocionei com a genialidade da resposta.
Tão profunda.
Pensei comigo mesmo: "mestre é mestre!"
Este foi meu primeiro contato ao vivo com o maior narrador de futebol do Rio Grande do Sul.

Juro que vou achar onde andam meus disquinhos do Grêmo campeão.

Um comentário:

Anônimo disse...

this post is very usefull thx!

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