22.10.09

Luiz Nei - "Eu matei Papai Noel"

Durante muitos anos vivi grilado, sem saber por que , com a chegada do Natal. Uma angústia muito grande quase me sufocava e fazia de meus dias uma verdadeira tortura mental. Nunca simpatizava com a figura do “Papai Noel” e sempre que podia, evitava até olhar pro cara.

Em minha casa também não havia um clima muito festivo com a aproximação do Natal, fato que alimentava ainda mais o meu desânimo com as festas de fim de ano , fazendo aumentar minha angústia.

Nossos hábitos natalinos, quando da minha infância, eram iguais aos de todas as casas que conheci. A árvore, os presentes, a cantoria, os abraços e..., o Papai Noel, de carne e osso e barba também , fazendo “Ho Ho Ho” como todos.

Já com mais idade, resolvi levar a sério esta questão e tentar buscar os motivos deste desconforto que tanto me deixava triste.

Certo dia, folheando um álbum de família, encontrei-me em plena infância, na casa dos meus avós, onde aconteciam os Natais. Ao ver as imagens, comecei a suar frio, um tremor e um mal-estar terrível que jamais esquecerei.

Mas, tudo ocorreu naquela noite. Ao dormir e sonhar, sob o impacto das imagens da infância, um filme foi passando e, quando cheguei aos meus 5 anos, lembrei como tudo havia acontecido:
Meu pai , velho caçador, encomendou ao Papai Noel uma arma de caça movida a bolinha de ping- pong que, para mim, representava o máximo de poder e pompa.

Naquela noite, como em todos os Natais, Papai Noel chegou para alegrar os adultos e aterrorizar as crianças. Ah, como sofria com aquela figura assustadora.

Depois de todos terem recebidos seus presentes, o “bom velhinho”, veio em minha direção, falou: _ ...Então, meu menino, gostou do present... Foi quando imediatamente apontei minha arma para aquela cara e atirei . O velho, atingido pelo meu tiro certeiro, caiu sobre a árvore enfeitada, e os pacotes que ainda restavam. Com todo aquele corpanzil foi fazendo um estrago horrível, acompanhado de um grito de dor que deixou a todos atônitos. Foi um grande rebuliço !

Meu pai, vendo aquela cena , tomou-me pelo braço e levou-me, junto com meus primos, para um quarto da velha casa, onde ficamos presos.

Acordei chorando, suado e nervoso por ter lembrado e sentido o quanto este episódio ficou me ferindo como um espinho penetrado, causando toda minha angústia.

A situação criada foi de um silêncio perpétuo, ninguém falava ou comentava o ocorrido. Eu, que causei todo aquele alvoroço, acho que por ter apenas 5 anos, fui poupado pelos mais velhos. Seria o segredo de nossa família. Eu havia matado Papai Noel. Assim permaneceu por anos e anos, eu com minha culpa e meus pais, tios e avós com o segredo.

Então, resolvi falar com alguém que estivera presente naquela noite de Natal e tentar esclarecer os pontos que continuavam obscuros na minha cabeça.

Tia Nicota, a mais chegada à família, estava sempre a par de tudo que acontecia com os parentes, suas aventuras e desventuras. Foi quem procurei e a quem perguntei sobre como eram os Natais de nossa infância.

Ela me olhou com expressão enigmática e falou: “...Eram muito bons, até a noite em que seu tio Janjão, que adorava ser todos os anos o Papai Noel, teve um infarto fulminante e caiu morto sobre a árvore de Natal , sobre nossa alegria e nossos sonhos de felicidade... Foi uma tragédia, concluiu !

Fiquei alguns minutos olhando longe, imaginando a cena. Então era isso ? Ela acha que foi assim que aconteceu ? Então tio Janjão era o Papai Noel ?

Pobre Tia Nicota! Não sabe que quem morreu foi o Papai Noel, e não Tio Janjão ... também nunca ficará sabendo que “eu matei Papai Noel !”.


SEI QUE NÃO É UM CONTO INFANTIL, MAS MESMO ASSIM, DEDICO AOS MEUS 5 NETOS, por ORDEM DE SUA CHEGADA A ESTE MILÊNIO:

DUDA (9 anos)

MÁRTIN (5 anos)

ANNA (3 anos)

LUIZA (3 meses)

PIETRO ( 1 mês)

Porto Alegre, OUTUBRO DE 2009.

Luiz Nei / Revisão de texto: Juçá Neves

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