10.12.10

O cu

É o cu um orifício misterioso, não é mesmo?
Não apenas por tudo que ele representa na sociedade, mas pelo simples fato de termos pouco contato com ele.
Não há no corpo humano um local tão importante com o qual não possuímos contato visual.
Sendo assim, o cu torna-se uma incógnita.
Já viu seu cu ao vivo?
Difícil, né?
Praticamente impossível.
A menos que você seja um contorcionista, você nunca verá seu cu de verdade.
Aí você vai dizer que já viu através de um espelho.
Pode até ser, mas não é o seu cu real.
É apenas um reflexo dele.

Pois não é que meu cu resolveu dar o ar da graça.
E foi por meio de uma fístula.
Sabe o que é uma fístula?
Pois é. Eu também não sabia.
E não sou eu que vou te explicar.
A única coisa que posso dizer é que esta tal de fístula me obrigou a fazer uma colonoscopia.
Colonoscopia você sabe o que é, não sabe?
Eu até sabia o que era, e até por saber nunca procurei maiores detalhes.
Não me agradava ter uma câmera introduzida em um local onde as coisas apenas saem.
Mas não tive opção.
Tudo pela segurança da minha saúde.


O cu - Parte II (desespero)

Para fazer a colonoscopia, é necessário a limpeza total do intestino.
E como isso é feito?
Pela ingestão de laxante na véspera e no dia do exame.
Nunca havia tomado laxante na minha vida.
Até porque nunca precisei.
Meu intestino sempre trabalhou perfeitamente.
Após tomar o laxante pela manhã, saí normalmente para trabalhar.
Nenhum efeito.
Eu sabia! Comigo não ia funcionar.
Passei tranquilo a manhã toda.
Almocei normalmente, voltei para trabalhar, segui a vida normal.
No final do meu expediente, decidi dar uma passada na associação dos funcionários para ver uma feira de aparelhos eletrônicos para vender.
Foi chegando lá que começaram os primeiros sinais de revertério.
“Opa!”, pensei com meus botões, “a coisa vai ser séria”.
Imediatamente, percebi que deveria ir embora naquele exato momento.
Preferi acreditar no meu autocontrole e deixei para resolver o problema em casa.
Já no carro, virando a segunda esquina, notei que a situação estava se tornando crítica.
O que fazer?
Voltar pro trabalho e procurar o banheiro mais próximo ou seguir até em casa?
Optei pela segunda alternativa.
Voltando ao trabalho ainda correria o risco de pegar um banheiro sem papel, ou com a porta fechada. Além de não saber ao certo quanto tempo teria que ficar dentro dele.
Resolvi acelerar, pois senti que as coisas poderiam tomar um rumo sem volta.
Meti 190 Km/h na avenida Ipiranga, costurando o trânsito.
Estômago fervilhando.
O suor escorrendo pelo rosto.
O carro para no sinal.
“Que merda de ar-condicionado que resolve estragar justo nesse momento”, esbravejei!
Mas o ar-condicionado estava funcionando e ligado no máximo.
Continuava suando.
Luz verde demorando uma eternidade pra aparecer.
Arranco desesperado.
Mais na frente um caminhão e uma Brasília se arrastando fechando a pista.
Dedo na buzina!
Berro pela janela: “SAI DA FRENTE, CARALEO!”
"Ultrapasso pela calçada?", pensei.
Seria uma cagada bem menor do que a que eu estava prestes a fazer.
Já na avenida Guilherme Alves, passando pelo Bourbon Ipiranga, o velocímetro marca 170 Km/h.
Estou perto de casa.
Mas ainda tem o último e derradeiro semáforo.
É na Guilherme Alves com a rua Felizardo.
Depois dele, mais nenhum até chegar em casa.
De longe vejo que ele está aberto.
Acelero ao máximo.
Seco o suor dos olhos.
E quando estou chegando perto o que acontece?
Sim, você sabe o que acontece.
O sinal fecha.
Pisei no freio graças ao extinto de sobrevivência.
Se não fizesse isso, provavelmente morreria ali mesmo e todo cagado.
E não era o que eu queria naquele momento para o meu futuro.
Fiquei ali paradinho.
Com as duas mãos quase arrancando o volante, perdi os sentidos por alguns instantes.
Foi nessa hora que eu vi Jesus.
Um facho de luz inundou o carro e ele surgiu carregando um rolo de papel higiênico.
Pedi clemência e forças para suportar.
Quando recobrei a consciência já estava sentado no vaso, no meu banheiro, na minha casa.
Ao lado, uma TV portátil e pilhas de livros.
Por ali ficaria por algumas horas.

Agradeci ao pai e aprendi uma lição muito importante:

Jamais menospreze o efeito de um laxante.

2 comentários:

Mariana Lubke disse...

Magníficas palavras, sábio Márcio!!!

Pri Tescaro disse...

Grupo RBS é teu futuro, meu querido!!!

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