1.12.10

Um repórter fotográfico no campo de batalha

Convivemos diariamente com o Wesley Santos aqui no Grêmio.
É um baita repórter fotográfico free-lancer que volta e meia está acompanhando grandes jogos de futebol e outros eventos de interesse mundial.
Paulista de Santo André, tem o defeito de torcer pelo Corinthians.
Dos tantos eventos que costuma acompanhar, Wesley esteve presente nas ações de guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro no último final de semana.
Contratado por uma agência, Wesley desembarcou na capital carioca direto para a Vila Cruzeiro.
De favela em favela, permaneceu com sua Canon Mark 3 sempre apontada para onde estava a ação, colhendo as melhores imagens da batalha.
De volta a Porto Alegre, conversei com ele aqui mesmo na sala da assessoria quando contou um pouco desta “aventura”:

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Márcio: Vamos começar pelo começo. Como se deu tua ida para o Rio de Janeiro?
Wesley: Fui contratado por uma agência de notícias (Press Digital) que centraliza fotos no Rio de Janeiro e São Paulo. Eles sabiam da minha condição de free-lancer e me fizeram a proposta deste trabalho. Aceitei na hora.

M.: Mas pelo menos te meteram no hotel?
W.: Até tinha um hotel, mas cheguei e fui direto para onde as coisas estavam acontecendo. Como havia a possibilidade de invasão na madrugada, passei duas noites em claro, usando apenas as instalações de um carro de apoio da Globo Rio.

M.: O que tinha nesse caro de apoio?
W.: Era uma unidade móvel da Globo, com ar-condicionado e água. Sempre que a Globo entrava ao vivo, era com o apoio deste carro. Apenas pedi um favor pra eles para poder ligar uma tomada e eles me acolheram na parceria.

M.: Tem muita parceria nesses momentos ou esse foi um caso isolado?
W.: Tenho muita facilidade para fazer amizades em qualquer lugar que vou. Seja no Brasil, seja na Argentina ou no Chile, aonde já trabalhei. Além da possibilidade de utilizar esse carro de apoio, ainda me conseguiram um colete balístico que utilizei durante todo este tempo que estive lá.

M.: Imagino que você teve que disputar espaço com uma quantidade absurda jornalistas em geral.
W.: É verdade. Teve disputa de espaço, de local. Mas tudo dentro da normalidade. Tinha muita imprensa. Essas que normalmente cobrem guerras estavam todas lá como a Al Jazeera, CNN, emissoras da Itália, Portugal. Todas as agências de fotografias do mundo: AFP, AP, Reuters e EFE, além de todas aqui do Brasil também.
Tu viu a minha foto na capa da Zero Hora de segunda-feira? Aquela da bandeira no topo? É minha!


M.: Eu ia te perguntar sobre isso. Deve ser um orgulho, né? A recompensa do trabalho.
W.: Exato. Até estava falando com a minha namorada hoje de manhã: fora a questão de portfólio e de grana, a foto na capa da Zero Hora foi o maior troféu que podia ter recebido. Porque eu já trabalhei lá dentro e sei como eles escolhem uma foto pra ser capa. Sei de todos os critérios que eles utilizam. A Zero Hora tem acesso às fotos de todas as grandes agências e pra terem escolhido essa minha é porque realmente era “A Foto”. Foi um troféu.

M.: Então conta a história dessa foto.
W.: Estávamos lá no alto do teleférico, eu e mais 50 fotógrafos lado a lado, na mesma posição. Lógico que todas as fotos seriam iguais. Então caminhei 50 metros pra esquerda e consegui um ângulo que ninguém tinha feito. Fugi daquele lugar exatamente pra ter o diferencial.

M.: Te vi várias vezes na TV. No Jornal Nacional, na Globo News, no Fantástico. Foi alguma tática pra mostrar pra família em casa que tu estavas bem ou foi por acaso, porque tu estavas no lugar certo?
W.: Foi pura coincidência. A gente está lá no meio dessa guerra e se desliga de tudo que tem ao redor. É como no Big Brother: no primeiro dia o cara se preocupa com a Cãmera, no segundo também, mas no terceiro dia não está mais nem aí pra ela. Ficamos focados no trabalho, esquecemos de tudo. Nem nos damos conta se tem uma câmera apontada pra gente, se estão ao vivo ou gravando.

M.: Me conta um pouco dessa experiência em si. Já imaginava em viver algo desse tipo?
W.: Engraçado. No início do ano, ao saber que eu não participaria do rali Dacar deste ano, coloquei uma frase no meu Facebook que dizia do meu desejo em ir para o Afeganistão ou para o Morro do Alemão. Coloquei esse projeto no meu Facebook em março. Se tu quiser até posso tentar achar pra te mostrar. Sempre foi um objetivo entrar no Morro do Alemão, mas não nessas circunstâncias. Queria algo mais investigativo, na tocaia. A verdade é que sempre tive esse plano.

M.: Então me conta como foi essa experiência. Sentiu medo? Quais os momentos que tu podes destacar?
W.: Um ponto que eu destaco foi na sexta-feira, às 15h. Subi a Vila Cruzeiro com o pessoal do CORE. Tava tudo na paz, bem tranquilo e de repente começou um tiroteio. Mas era tiro e tiro, sem parar. Era eu e apenas 15 agentes. Ficamos literalmente com a cara enfiada na areia durante 40 minutos até que chegaram mais de 100 homens. De helicóptero e por terra para nos resgatar e dar apoio.

M.: Nessa hora tu te cagou perna abaixo?
W.: Fiquei preocupado. Na hora a pessoa congela. Cada um tem sua característica. Eu não fico feliz, nem triste. Fico frio. Só depois de duas horas, quando tudo já passou é que a ficha cai.
Outro ponto pra destacar foi na invasão ao Morro do Alemão. Exatamente às 8h de domingo, pontualmente. Vi que tinha uma entrada onde estava toda a imprensa reunida. Desci uns três quarteirões e peguei uma rua lateral. Subi com o pessoal. Ia protegido atrás de um blindado da marinha que subiu atirando, sem parar.


M.: Então valeu a pena?
W.: Sem dúvida. Faria tudo de novo. Existe a possibilidade de fazerem a mesma ação na Rocinha e já estou escalado. A agência que me contratou ficou super satisfeita com o material que eu mandei. Já recebi várias propostas de outras agências para trabalhar fixo, mas vou continuar com eles.

M.: Eu queria a tua opinião sobre toda essa ação e a retomada pela polícia do Morro do Alemão.
W.: Conversando com o pessoal, com os moradores, comerciantes, todos dizem que foi uma ação diferente de todas as outras que a polícia já fez e que não deram certo. Acham que agora é pra valer e que vão conseguir limpar a área. A comunidade respeitou e apoiou porque dessa vez viram que era sério. Nós passávamos por becos com 20 ou 30 moradores e todos aplaudiam a passagem dos policiais. Deu pra ver que a ação estava no caminho certo.

M.: Só mais uma pra terminar: no teu twitter, tu colocaste que os bandidos são marqueteiros. Que bastava a Globo entrar ao vivo na programação que eles começavam a mandar bala. É verdade? Como foi?
W.: É verdade! Foi na entrada da favela da Grota, no Complexo do Alemão. Sempre que a Globo entrava ao vivo, eles mandavam bala. Até que um dos diretores da emissora descobriu e mandou suspender todas as entradas ao vivo.

Se quiser saber mais sobre o Wesley Santos, pode dar uma olhada no blog dele aqui 

3 comentários:

Pri Tescaro disse...

Bah, é por toda essa adrenalina que eu sou apaixonada pelo jornalismo. Até escrevi sobre "Ser jornalista" no meu blog - www.pritescaro.com.br

Anônimo disse...

Parabéns, Bom trabalho!

Anônimo disse...

VOLTASTE CORAÇÃO ?

"Que bom !!!"
Agora : ferro na moqueca !

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