31.1.11

Lembranças de acampamento

No último final de semana, saímos para comprar um novo aparelho de televisão, tendo em vista que minha TV comprada para assistir a Copa de 1994 definitivamente foi pro saco.
Na loja onde adquirimos o produto, havia uma seção de camping com diversos tipos de barracas.
Enquanto aguardava todos os trâmites burocráticos para liberação da TV, relembrei de todas as vezes em que acampei.
Foi então que descobri que nenhuma delas me trazia boas recordações.

Guarda do Embaú I

Minha primeira experiência dentro de uma barraca foi com meu tio Childrey (Sim. Esse é o nome dele).
Foi por meados de 1985.
Ele me colocou dentro de uma Kombi com a mulher e os dois filhos e fomos acampar na Guarda do Embaú, quando esta praia catarinense ainda era completamente desabitada.
Meu tio era assim, meio sem noção.
Adepto à cultura hippie.
Cabelos compridos, dieta macrobiótica, essas coisas.
Hoje ele é uma pessoa normal.

Bom, nossa barraca ficou montada em um terreno no meio do mato.
Era pequena.
Apertada para cinco pessoas.
No dia seguinte, quando voltamos de um passeio pelas praias vizinhas, encontramos uma vaca dentro dela.
Destruiu tudo e acabou com nossos mantimentos.

Guarda do Embaú II

A segunda experiência foi logo depois.
Desta vez já com uma barraca própria comprada pela família (exatamente igual a essa).
Ainda assim, uma experiência não menos traumática.
O local foi o mesmo: a Guarda do Embaú.
Desta vez Childrey (ele outra vez) alugou uma casa de pescador para poder convidar mais gente.
Montamos a barraca no pátio desta casa.
Luiz Nei e Juçá, adeptos ao conforto e às boias coisas da vida, foram obrigados a dormir num colchonete num dos quartos da barraca.
No outro, espremidos, Leila, Marcos e eu.
Calor infernal.
O sofrimento por si só já começava aí.
No terceiro dia de acampamento, metade da família foi acometida por uma virose intestinal graças a um sorvete de coco queimado ingerido na cidade mais próxima.
Foi triste.
Luiz Nei foi o que mais sofreu.

Canasvieiras

Mas a pior de todas as experiências foi a terceira, no verão de 1991.
Desta vez não tinha família nem Childrey.
Mas tinha a barraca.
Eu, juntamente com o xará Márcio, amigo da praia, decidimos acampar em Santa Catarina.
Barraca no porta-malas do meu Fiat Uno 1.6 R, seguimos rumo à Ilha da Magia.
Montamos acampamento em Canasvieiras.
Um camping de verdade, grande.
Um mínimo de infraestrutura.
O dono do local nos ajudou.
Deu algumas dicas.
Alertou para que montássemos a barraca em um local mais alto para que, em caso de chuva, ela não ficasse embaixo d´água.
Seguimos à risca tal conselho.
A barraca ficou supimpa!
Com cara de lar.
Tinha até uma mesa e cadeiras de praia.
A noite se aproximava, e antes de sair para um passeio pela cidade, deixei minha cama arrumada e ainda coloquei um espiral de “Boa-Noite”, um veneno para mosquitos.
Já no centrinho de Canasvieiras, repleto de argentinos, começou um temporal.
Imaginei ser uma chuvinha passageira de verão.
Mas ela veio com tudo.
Muita chuva. Muita água.
Nos escondemos dentro de um shopping center.
Nós e uma multidão.
Aos poucos os transtornos começaram a aparecer.
Ruas e calçadas inundadas.
Pessoas já em pânico.
Aquela chuva que, num primeiro momento, parecia chegar para refrescar o calor, já não tinha mais graça.
Enquanto observava uma verdadeira cachoeira que desabava diante da porta de entrada do shopping, comentei com meu xará:

- Bah. E a nossa barraca?

No que de imediato ele me tranquilizou.
- Nem esquenta. Montamos ela numa parte mais alta do camping. Não vai ter problemas.
Passada a tormenta, e já entrávamos na madrugada, decidimos retornar ao camping.
No caminho, um verdadeiro caos.
Tudo embaixo d´água.
Casas inundadas.
Não estava com um bom pressentimento.
Já na entrada do camping, dava pra ver que a situação lá dentro não era muito diferente.
Encharcados e no escuro, corremos para o local onde havíamos montado acampamento.
Chegando lá, pavor!
Cadê?
Cadê nossa barraca?
Cadê nossas coisas?
Pois bem, senhores...
Nosso lar havia desabado.
Aquele cantinho acolhedor carinhosamente montado havia se transformado em um pedaço de lona amontoada e ferro retorcido debaixo d´água.
A situação foi tão bizarra que tive uma crise de riso.
Gargalhei por aproximadamente 15 minutos deitado na grama molhada para espanto dos outros hóspedes.
Quanto mais lembrava da frase do dono do camping na hora de montar a barraca, mais eu ria.

- Monta ela aqui em cima. É uma área mais alta. Se chover, não corre o risco de alagar.

Chorei.

Bom, passado o momento inicial da euforia, tratamos de salvar alguma coisa.
Consegui achar um espaço sob a lona e os ferros para penetrar no que anteriormente era o interior da barraca e onde estavam nossos pertences.
Segurando uma lanterna, a primeira coisa que avistei foi o espiral de “Boa-Noite” aceso, boiando na água.
Mais uma crise de riso interminável.
Do lado de fora, meu amigo gritava:

- O que houve? O que houve? Tá maluco?

Lá de dentro, só tinha uma coisa que eu conseguia gritar no meio da crise:

- Não tem mosquito! Não tem mosquito!

Nesta noite dormimos dentro do carro e voltamos no dia seguinte pra casa.
Meu travesseiro ficou embaixo d´água e nunca mais foi o mesmo.
Também nunca mais acampei.
Hoje em dia, sigo armando a barraca, mas no sentido figurado.

2 comentários:

Hellen disse...

Rsrsrsrsrsrsrs.

NUNCA acampei. Nunca tive a devida coragem... Confesso que prefiro um teto de cimento (ou madeira, palha, qualquer coisa que o valha) em cima da cabeça, banheiro com vaso sanitário, papel e chuveiro e nada de mato, bichos e lama...

Paulo Roberto disse...

Cara como ri lendo o teu texto!
Me perdoe, mas é muito engraçado cada situação!
É coisa de filme Pastelão! Dá para fazer o I, o II(retorno para a tragédia), e III(a tragédia não acaba)..rsrsr
Agora sobre o teu tio:
"Hoje ele é uma pessoa normal."
Hippie são anormais?rsrsrsr
Coitado do teu tio..pelo jeito GENTE SUPER BOA,e tu zuando da cara dele..rsrsrs
Desculpas, mas ainda continuo a rir dos teus acampamentos, ou melhor...tragédias...rsrsrs

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