31.12.11

Sou um retardado

Isso mesmo.
Sempre fui um pouco retardado.

Sei que a frase inicial deste post é um tanto polêmica ou surpreendente, mas quem me conhece mais profundamente pode entender o que quero dizer.
E o que quero dizer é que as coisas na minha vida sempre aconteceram um pouco depois do que acontece na vida das pessoas normais.
Na minha adolescência, enquanto meus amigos se preocupavam em ficar correndo atrás das menininhas, eu passava meus finais de semana jogando botão em casa.
Achei necessário ilustrar com um exemplo.

Num primeiro momento, considerava esta lentidão um tanto quanto preocupante.
Não propriamente pelas consequências que trazia pra minha vida, mas pela pressão da sociedade.
E quando falo sociedade, quero dizer “família”.

Um dia meus pais me chamaram para um papo sério.
Estavam preocupados com minha dificuldade em amadurecer.
Minha mãe até chorou.
Não queria um filho vagabundo morando na casa dela até aos 45 anos.
Até entendi o desespero deles, mas a verdade é que não via nenhum motivo para acelerar o meu amadurecimento.
Por outro lado, eles tinham grande parcela de culpa nisso tudo.
Sempre tive uma vida confortável.
Sempre tive tudo que quis.
Nunca precisei batalhar e encarar a vida de frente.

Mas sei que não foi por mal.
Fizeram o que fizeram por amor.
Para me proteger.
Essa parte foi para tranquiliza-los, caso estejam lendo.

Mas o tempo foi passando, e aos poucos foram vendo que as coisas iam se ajeitando na minha vida.
Até larguei o futebol de botão para correr atrás das menininhas.

Um grande erro.

Quando tentei acelerar o processo, acabei me dando mal.
Troquei os pés pelas mãos.
Coloquei a carroça na frente dos bois.
E até hoje arco com as consequências.
Tivesse seguido meu ritmo “retardado” não teria feito tanta merda nessa vida.
Agora não adianta chorar o leite derramado.

Desculpem-me os jargões, mas esse papo todo veio hoje na minha cabeça depois de assistir uma reportagem especial do canal SporTV durante o voo que me trouxe de Campinas para Porto Alegre.
A matéria, longa e bem produzida, era sobre o efeito da idade (do passar do tempo) sobre o corpo e a mente dos atletas de alto-rendimento.
O desgaste.
O término da carreira.
As desilusões.
A ascensão e queda.

Em 2012, completo 40 anos de vida.
Já não sou mais um guri.
Já estou na fase descendente.
Ou seja, já passei da metade da minha existência.
Cronologicamente pensando, estou na contagem regressiva para a morte.

Nossa!

Parece trágico, mas não é.
Seria trágico, não fosse um detalhe:
Não me sinto com 40 anos.
Não me sinto com 40 anos nem física e nem mentalmente.
Me sinto jovem.
Me sinto bem.

Hoje não me preocupo mais com a maturidade.
Muito pelo contrário:
Hoje me sinto feliz por ser um retardado.
Que assim seja até o fim.

4 comentários:

Anônimo disse...

que lindo.
voce tambem escreve muito bem.

Márcio Neves disse...

Obrigado!

Anônimo disse...

Amigo seu texto me trouxe alivio, sinto o mesmo hoje tenho 24 anos sou autonomo e sinto que tudo que faço vira merda, sinto que miha vida é uma mera simples existencia sem sentido, pai morto, mãe doente e a carga de tudo em cima de min, sem falar da dficuldade em namorar agradeço pelo seu texto me trouxe um pouco de confroto

Márcio Neves disse...

Fico feliz

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...