13.1.12

Deixa que eu bato

Defendo a teoria de que uma cobrança de falta na barreira é o lance mais frustrante do futebol.
Não existe no esporte bretão uma reversão de expectativa tão grande quanto uma bola parada que acaba na barreira feita pelo time adversário.
A teoria é boa.
Foi criada por mim.

Absolutamente ninguém espera que uma cobrança de falta termine interceptada logo a nove metros adiante.
Quando surge uma grande oportunidade na entrada da área, por exemplo, imediatamente imaginamos o gol, ou pelo menos um lance plasticamente bonito, com a bola batendo na trave, com uma grande defesa do goleiro ou, até mesmo, com o esférico passando pertinho do ângulo.
Quando isso não ocorre (e só não ocorre por culpa da barreira), o sentimento é de profunda frustração.

O leitor até pode argumentar que uma cobrança de pênalti perdida seria mais frustrante.
Isso não é verdade!
Quando um jogador se prepara para uma cobrança de penalidade máxima, só existem duas expectativas: o erro ou o acerto.
Portanto, se ele errar uma cobrança, está dentro da expectativa inicial do torcedor.

Sou um apaixonado pelas belas cobranças de falta.
Felizmente, acompanhei de pertinho uma geração que possuía Zico e Roberto Dinamite.
Era década de 80.
Estes talvez os dois maiores cobradores de falta da história do futebol brasileiro.
Depois vieram Neto e Marcelinho Carioca.
Outros dois extraordinários cobradores.
Cada um no seu estilo.
Neto mais na força e Marcelinho mais no jeito.
Quando o árbitro apontava falta perto da área para estes quatro jogadores, era meio gol.
Praticamente impossível uma bola parar na barreira.

O tempo foi passando, e os grandes cobradores de falta passaram a se tornar uma raridade nos clubes de futebol.
Exatamente ao contrário do que deveria ser.
Da maneira como o futebol se tornou competitivo, baseado no preparo físico e na teoria de defender para depois atacar, as cobranças de falta deveriam ser um artifício para surpreender e superar este poderio defensivo dos adversários.
Mas não é assim.
Falta de treinamento específico?
É bem provável que seja.
Quem já não escutou histórias de jogadores que, após o final do treinamento, passavam horas treinando falta, até escurecer?
Alguém faz isso hoje?
Quando o treino termina, querem mais voltar pra casa.
Ou o ônibus está esperando para levar pra concentração.

Algumas raras exceções surgiram, mas sem muito alarde.
Petkovic, talvez o principal.
Até mesmo o Ronaldinho Gaúcho.
Apesar de toda a qualidade que já teve e um gol de falta “sem querer” contra a Inglaterra no Mundial da Alemanha, não lembro de um marcante e inesquecível.
Fez num Gre-Nal em 1999. A bola desviou na barreira.
Mas não foi lá grande coisa.

Aliás, não recordo de um grande cobrador de falta vestindo a camisa do Grêmio.
Lógico que já tivemos belos gols de falta de atletas que vestiram a camisa do Tricolor, mas nenhum que pudéssemos chamar de “especialista”.
Lembram de algum?
Tadeu Ricci na década de 70 ao lado de Eder.
Um no jeito e outro na força.
Tita em 1983 era um exímio cobrador.
Ficou pouco tempo no Grêmio.
Conquistou uma Libertadores, mas não recordo de nenhum gol de falta nesse período.
Mais algum?
Branco, Paulão, Jorginho, Itaqui...?
Nenhum jogador daqueles que eram certeza de gol quando uma falta era marcada.

Um bom cobrador é tão raro no Grêmio que chegamos a uma triste realidade: quando uma falta é marcada na entrada da área o torcedor pensa: “não vai dar em nada”.

Para matar a saudade e ilustrar o post, seguem abaixo dois daqueles que considero os mais belos e espetaculares gols de falta que já vi.
Um na força e outro no jeito.
Torcendo para que, um dia, possamos ter em nosso clube algum atleta abençoado por esse dom.

Ou que treine.



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