26.3.12

No Chipre para fazer história - Entrevista com Marcelo Oliveira do APOEL


A modesta equipe do APOEL Nicósia, da capital do Chipre, é a grande surpresa da fase de quartas de final da Liga dos Campeões da Europa. É a primeira vez que um time da pequena ilha do Mediterrâneo consegue chegar tão longe numa competição continental. Para tanto, deixou para trás equipes com muito mais tradição, como Porto, Shakhtar, Zenit e Lyon.

O adversário é o poderoso Real Madrid, nada que meta medo na equipe que conta com a participação de seis brasileiros, entre eles o zagueiro Marcelo Oliveira, campeão da Série B pelo Grêmio no ano de 2005 e fundamental para o retorno do Tricolor à elite do futebol brasileiro.

Às vésperas do maior jogo da história do APOEL, conversei com Marcelo Oliveira por e-mail enquanto aguarda concentrado em um hotel de Nicósia o confronto contra o Real Madrid.

Ele sabe que não será fácil, mas o sentimento de dever cumprido e a certeza que já deixou seu nome gravado na história do clube cipriota são combustíveis em busca de um novo milagre sem precedentes no futebol europeu.

Confira abaixo a entrevista onde Marcelo fala de sua saída para o futebol europeu, a adaptação e as lembranças da época de Grêmio:



Márcio: Pela primeira vez na história, o APOEL chega a uma fase de quartas de final da Liga dos Campeões. Como você está vendo este confronto contra o Real Madrid? O que se pode esperar da equipe?

Marcelo Oliveira: A decisão começa nesta terça-feira. Será um dia muito importante, não só para nossa equipe, mas sim para todo o futebol do Chipre! Teremos um jogo muito difícil pela frente, contra uma das melhores equipes do mundo, mas sinto que estamos preparados e vamos fazer o nosso melhor. Chegamos até aqui e não foi fácil, passamos por equipes difíceis de serem batidas e amanhã não vai ser diferente. Os respeitamos, mas não os tememos!


Márcio: Imagino que o torcedor esteja ansioso por este confronto, tanto que todos os ingressos já foram vendidos. Como está sendo a reação do torcedor do APOEL, principalmente com vocês jogadores?

Marcelo Oliveira: Uma loucura! Ingressos esgotados, todos querem estar presente nesse momento tão importante! Com certeza, a torcida vai fazer uma festa inesquecível neste confronto que começa amanhã!


Márcio: Independente do resultado, o clube entra para a história do país. Como é fazer parte deste momento?

Marcelo Oliveira: É um sentimento de dever cumprido. É saber que o esforço de cada dia esta alcançando um resultado muito bom! Fico muito feliz por fazer parte dessa história que estamos construindo aqui no Chipre com muito trabalho.


Márcio: A gente sabe que existem muitos jogadores brasileiros espalhados pela Europa, mas o Chipre não é um país de muita visibilidade. Como é sua vida no Chipre?


Marcelo Oliveira: É uma vida tranquila. Vivo em uma cidade pequena, calma! Isso é muito bom. Tem meus companheiros de grupo por perto, são brasileiros. Isso ajuda.


Márcio: Quais foram os principais problemas de adaptação? Como você se vira no dia-a-dia?

Marcelo Oliveira: Não tive problema nenhum pra me adaptar aqui no Chipre. Como disse antes, já existiam mais brasileiros na equipe e isso facilita. Também estava vindo da Grécia onde vivi por cinco anos. Os países são parecidos, o idioma é o mesmo. Foi tranquilo!


Márcio: De que forma você costuma acompanhar as coisas do Brasil?

Marcelo Oliveira: A internet facilita as coisas. Acompanho tudo por aqui!



Márcio: Como é a torcida do APOEL? Tem alguma semelhança com o Brasil?

Marcelo Oliveira: É uma torcida muito fanática e participativa. Penso que muito diferente dos outros países da Europa. Cantam muito mesmo. Muito parecido com a torcida do Brasil, incentivando o jogo todo!


Márcio: Como é a estrutura do APOEL? O que ele oferece pra você?

Marcelo Oliveira: Temos um bom centro de treinamento com dois campos, um bom vestiário com academia, piscina de água gelada, jacuzzi, sem falar nos médicos, massagistas, nutricionista e as pessoas que trabalham nos bastidores e que não aparecem. Nos dão todo o suporte necessário para que possamos retribuir dentro de campo!


Márcio: Do que mais você sente falta?

Marcelo Oliveira: Da minha familia,esposa,filhos.


Márcio: Quais seus principais planos para o futuro? Pretende seguir no APOEL? Pensa em voltar para o Brasil?

Marcelo Oliveira: Tenho contrato aqui ainda, to feliz. Mas sempre dá aquela vontade de voltar a jogar no Brasil. O futuro a Deus pertence!


Márcio: Voltando um pouco mais no tempo: você saiu do Brasil para jogar na Grécia, é isso? Como se deu essa transferência?

Marcelo Oliveira: Sim, saí do Brasil em junho de 2006 e acertei um contrato de três anos com o Atromitos, na Grécia! Eu tinha acabado de rescindir meu contrato com o Grêmio e estava livre. Meu empresário chegou com essa proposta e aceitei. Queria um vínculo mais longo e seguro, pois tinha acabado de ter meu primeiro filho. Graças a Deus, deu tudo certo.



Márcio: Como foi sua adaptação ao futebol grego? Pela proximidade, ajudou na sua adaptação agora no Chipre?

Marcelo Oliveira: Na Grécia, a adaptação foi muito mais difícil, principalmente por ser a primeira vez que estava saindo do Brasil. Tive muita ajuda de um brasileiro que já estava há muito tempo por lá e foi pro mesmo time, no mesmo ano que cheguei. Minha esposa me ajudou muito também! Minha passagem pela Grécia me ajudou muito no Chipre. Aqui não tive problema algum, Neste período na Grécia, aprendi a falar grego e dominar o idioma faz muita diferença.


Márcio: A equipe do Atromitos que você atuou na Grécia não é considerada de primeira linha. Como foi este período. O que você pode dizer sobre esta experiência?

Marcelo Oliveira: É uma equipe média da Grécia. Foi uma experiência muito boa e proveitosa. Passei cinco anos da minha carreira lá. Só tenho a agradecer ao presidente e todas as pessoas que fizeram parte na minha vida por esse período que estive lá.


Márcio: E sua família? Como eles lidam com essa distância do Brasil?

Marcelo Oliveira: Minha família vive em Porto Alegre. Estou sozinho aqui no Chipre e essa é a parte mais difícil pra mim, mas mantemos contato todos os dias pela internet, o que facilita um pouco as coisas e ameniza a saudade.


Márcio: Quais suas principais lembranças do Grêmio e aquela trajetória no inesquecível no Brasileirão da Série B em 2005?

Marcelo Oliveira: Me recordo de tudo! As lembranças seguem vivas na minha cabeça. Os companheiros com quem tive o prazer em trabalhar junto, as brincadeiras do dia-a-dia, os jogos decisivos que tivemos em um momento tão importante para o clube! Não tem como esquecer.


Márcio: Você fez parte da Batalha dos Aflitos, estava lá. O que você recorda?

Marcelo Oliveira: Tive o prazer de fazer parte daquele grupo de jogadores que fizeram história naquele jogo. Lembro como se fosse hoje! Inesquecível!


Márcio: Você me pediu o telefone do Alemão, roupeiro do Grêmio. Além dele, com quem você ainda tem contato daquela época? Ficaram amizades?

Marcelo Oliveira: No Grêmio, hoje em dia, só tenho contato mesmo com o “Alemão”, mas sempre nas férias passo pelo Olímpico pra falar com ele e com outras pessoas que tenho amizade também. Os clubes passam, mas as amizades ficam pra sempre!


Fotos: Facebook oficial do jogador.

25.3.12

O dia em que não conheci Chico Anysio

Não recordo ao certo qual foi o ano, imagino que por volta de 2002 ou 2003.
Ao saber de uma exposição de quadros de Chico Anysio em Porto Alegre, o departamento de marketing do Grêmio decidiu presentear o artista com uma camisa personalizada.

Não foram raras as vezes que Chico Anysio declarou publicamente a preferência pelo Grêmio em Porto Alegre. Sendo assim, o Clube resolveu presentear o humorista quando de sua passagem pela Capital.

A exposição de suas “obras de arte” estava acontecendo no Empório Carlos Gomes, junto ao Mãe de Deus Center, no bairro Três Figueiras, enquanto ele se hospedava no hotel ao lado, no Novohotel.

Cheguei ao local acompanhado pelo Duda Kroeff, ex-presidente do Grêmio, na época responsável pelo marketing.
Confesso que estava ansioso por encontrar o mestre do humor.
Sem dúvida, um ícone.

Naquela mesma época já tinha conhecido personalidades como Caetano Veloso, Raimundo Fágner, Maná, sempre dentro desta filosofia de valorizar a marca do Grêmio junto aos grandes artistas que desembarcavam na cidade.

A combinação é que ele Chico Anysio desceria de seu quarto por volta das 19h30 para participar de um coquetel que estava sendo organizado.
Passamos o tempo observando seus quadros expostos e me lembro de ter ficado impressionado com a baixa qualidade de suas pinturas.

Obviamente, um artista da grandeza de Chico Anysio, não se daria ao trabalho de chegar no horário combinado.
Uma hora já havia passado e os presentes já mostravam certa inquietação.
Um dos responsáveis informou que o artista estava descansando, mas não demoraria a aparecer.

Por volta das 21h30, com duas horas de espera, Duda Kroeff comentou comigo: “vamos esperar mais meia hora, se ele não aparecer, nós vamos embora”.

Graças a Deus, pensei. Não aguentava mais aquela espera e, por mim, já estaria em casa há muito tempo.

E foi o que aconteceu meia hora depois.

Mandamos Chico Anysio para puta que o pariu e fomos embora levando a camisa personalizada que entregaríamos ao mestre, com carinho.

Foi assim o dia que não conheci Chico Anysio.

Com esta lembrança, minha homenagem em sua despedida.

21.3.12

Minhas ruas

Nome das ruas que já morei nestes 40 anos de vida:

Maurício Cardoso
Hilário Ribeiro
Nilo Peçanha
Barão do Gravataí
Estácio de Sá
Lajeado
Francisco Valdomiro Lorenz
Visconde Duprat

Não conta a praia: rua Guaimbé.
Não conta estada em Madrid: Calle El Escorial

14.3.12

Amigo do Adonis

Fiz uma incursão futebolística pela Costa Rica no distante ano de 1990.
O pequeno e pacato país da América Central tinha conquistado pela primeira vez vaga em uma Copa do Mundo de futebol.
No caso, na Itália.
Meu conhecimento acerca do futebol costarriquenho era muito precário.
Obviamente, naquela época, não tínhamos a facilidade de hoje para conseguirmos informações, principalmente de lugares com tão pouca representatividade no cenário esportivo mundial.
No entanto, a Costa Rica tinha caído no grupo do Brasil na primeira fase da Copa e matérias de apresentação e análise dos adversários viraram rotina na mídia.
Portanto, posso dizer que embarquei para San Jose com um mínimo de conhecimento.

Adonis Hilario (foto acima) era o grande jogador do país, brasileiro assim como Alexandre Guimarães, seu companheiro de Deportivo Saprissa, equipe mais popular da Costa Rica. Era idolatrado pelos companheiros e mandava mais que o próprio presidente, Óscar Arias.
Adonis lembrava o Nélio, que jogava no Flamengo.
Era o estereótipo do jogador brasileiro: carioca da gema, levava aos gramados o molejo e malemolência da malandragem. Humilhava os adversários e comemorava os gols com uma tradicional sambadinha (estilo Rubinho Barrichello no pódio) que acabou se tornando marca registrada e referência para os meninos que disputavam animadas peladas nos campinhos do parque La Sabana, ao lado do Estádio Nacional.
Todas as sambadinhas terminavam com um cruzar de pernas e um giro de corpo de 360 graus que só os melhores passistas das escolas de samba do Rio de Janeiro sabem dar.

Conheci Adonis logo após um treino no estádio Ricardo Saprissa.
Abordei o atacante quando ele se dirigia ao vestiário.
Eu na arquibancada e ele no gramado.
Surpreso ao me ouvir falar português, parou para conversar através do alambrado e pediu para que eu o esperasse na saída do vestiário para o estacionamento.
De banho tomado, bem vestido e adornado por correntes de ouro e anéis, Adonis teve que se esquivar de torcedores e fotógrafos até chegar onde estava eu, encostado num carro.

Conversamos alguns minutos, mas o assédio era tanto que Adonis decidiu sair dali. Entramos em seu carro e saímos pelas ruas de San Jose.
Me acompanhava o amigo e colega Giovanny Ruiz, que praticamente não acreditava que estava passeando de carro com o maior ídolo do futebol do seu país.
Fato que, pra mim, não queria dizer nada.

Com Adonis visitamos uma das maiores lojas de artigos esportivos de San Jose, que pertencia a seu empresário e almoçamos num restaurante brasileiro em um bairro nobre da cidade.

No dia seguinte, combinamos um almoço na casa de Alexandre Guimarães (foto acima). Outro ídolo da torcida do Saprissa e brasileiro que mais tempo jogava no país. Nos recebeu com uma típica feijoada e uma roda de samba improvisada que ajudava a matar a saudade do Brasil.

No almoço, ainda tinham alguns outros jogadores do Saprissa, como Evaristo Coronado (foto abaixo) e o índio Benjamin Mayorga (foto ao lado), uma figura ímpar. Era índio de verdade! Vindo da tribo Bri-bri, que habitava a fronteira com o Panamá. Sério, de poucas palavras, chegava a assustar pelo seu jeito rude, mas tinha um grande coração, conforme me explicou Guimarães. Hoje, Mayorga trabalha na política em defesa das minorias indígenas de seu país.

Alexandre Guimarães nem preciso dizer. É uma referência quando falamos de futebol costarriquenho. Naturalizado, participou das três copas do mundo da história do país, uma como jogador e duas como técnico. Treinou também no Panamá e no Oriente Médio.

Com relação a Adonis Hilario, nunca mais tive notícias. Pesquisando na internet, me parece que hoje trabalha nas categorias de base do próprio Saprissa, como avaliador. Não realizou seu sonho da época que era voltar ao Brasil para jogar pelo Botafogo.

Nesta experiência única dentro de um país humilde e alegre, conheci a verdadeira essência do futebol e da amizade, por meio de pessoas hospitaleiras e trabalhadoras, ainda não corrompidas pelo poder do dinheiro.
Tenho certeza que, apesar de já passados 22 anos, essa continua sendo a cara do futebol da Costa Rica.

Talvez por isso nunca tenha chegado a lugar nenhum.

Essa observação final foi só pra estragar o relato.  

Ps.: De lambuja, segue abaixo links com entrevista que encontrei com Adonis feita em 2010 e uma seleção dos seus melhores gols. Vale dizer que não consegui vê-lo jogar, pois na época que estive lá só ocorreram jogos da seleção.

Gols.

Entrevista.
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