14.3.12

Amigo do Adonis

Fiz uma incursão futebolística pela Costa Rica no distante ano de 1990.
O pequeno e pacato país da América Central tinha conquistado pela primeira vez vaga em uma Copa do Mundo de futebol.
No caso, na Itália.
Meu conhecimento acerca do futebol costarriquenho era muito precário.
Obviamente, naquela época, não tínhamos a facilidade de hoje para conseguirmos informações, principalmente de lugares com tão pouca representatividade no cenário esportivo mundial.
No entanto, a Costa Rica tinha caído no grupo do Brasil na primeira fase da Copa e matérias de apresentação e análise dos adversários viraram rotina na mídia.
Portanto, posso dizer que embarquei para San Jose com um mínimo de conhecimento.

Adonis Hilario (foto acima) era o grande jogador do país, brasileiro assim como Alexandre Guimarães, seu companheiro de Deportivo Saprissa, equipe mais popular da Costa Rica. Era idolatrado pelos companheiros e mandava mais que o próprio presidente, Óscar Arias.
Adonis lembrava o Nélio, que jogava no Flamengo.
Era o estereótipo do jogador brasileiro: carioca da gema, levava aos gramados o molejo e malemolência da malandragem. Humilhava os adversários e comemorava os gols com uma tradicional sambadinha (estilo Rubinho Barrichello no pódio) que acabou se tornando marca registrada e referência para os meninos que disputavam animadas peladas nos campinhos do parque La Sabana, ao lado do Estádio Nacional.
Todas as sambadinhas terminavam com um cruzar de pernas e um giro de corpo de 360 graus que só os melhores passistas das escolas de samba do Rio de Janeiro sabem dar.

Conheci Adonis logo após um treino no estádio Ricardo Saprissa.
Abordei o atacante quando ele se dirigia ao vestiário.
Eu na arquibancada e ele no gramado.
Surpreso ao me ouvir falar português, parou para conversar através do alambrado e pediu para que eu o esperasse na saída do vestiário para o estacionamento.
De banho tomado, bem vestido e adornado por correntes de ouro e anéis, Adonis teve que se esquivar de torcedores e fotógrafos até chegar onde estava eu, encostado num carro.

Conversamos alguns minutos, mas o assédio era tanto que Adonis decidiu sair dali. Entramos em seu carro e saímos pelas ruas de San Jose.
Me acompanhava o amigo e colega Giovanny Ruiz, que praticamente não acreditava que estava passeando de carro com o maior ídolo do futebol do seu país.
Fato que, pra mim, não queria dizer nada.

Com Adonis visitamos uma das maiores lojas de artigos esportivos de San Jose, que pertencia a seu empresário e almoçamos num restaurante brasileiro em um bairro nobre da cidade.

No dia seguinte, combinamos um almoço na casa de Alexandre Guimarães (foto acima). Outro ídolo da torcida do Saprissa e brasileiro que mais tempo jogava no país. Nos recebeu com uma típica feijoada e uma roda de samba improvisada que ajudava a matar a saudade do Brasil.

No almoço, ainda tinham alguns outros jogadores do Saprissa, como Evaristo Coronado (foto abaixo) e o índio Benjamin Mayorga (foto ao lado), uma figura ímpar. Era índio de verdade! Vindo da tribo Bri-bri, que habitava a fronteira com o Panamá. Sério, de poucas palavras, chegava a assustar pelo seu jeito rude, mas tinha um grande coração, conforme me explicou Guimarães. Hoje, Mayorga trabalha na política em defesa das minorias indígenas de seu país.

Alexandre Guimarães nem preciso dizer. É uma referência quando falamos de futebol costarriquenho. Naturalizado, participou das três copas do mundo da história do país, uma como jogador e duas como técnico. Treinou também no Panamá e no Oriente Médio.

Com relação a Adonis Hilario, nunca mais tive notícias. Pesquisando na internet, me parece que hoje trabalha nas categorias de base do próprio Saprissa, como avaliador. Não realizou seu sonho da época que era voltar ao Brasil para jogar pelo Botafogo.

Nesta experiência única dentro de um país humilde e alegre, conheci a verdadeira essência do futebol e da amizade, por meio de pessoas hospitaleiras e trabalhadoras, ainda não corrompidas pelo poder do dinheiro.
Tenho certeza que, apesar de já passados 22 anos, essa continua sendo a cara do futebol da Costa Rica.

Talvez por isso nunca tenha chegado a lugar nenhum.

Essa observação final foi só pra estragar o relato.  

Ps.: De lambuja, segue abaixo links com entrevista que encontrei com Adonis feita em 2010 e uma seleção dos seus melhores gols. Vale dizer que não consegui vê-lo jogar, pois na época que estive lá só ocorreram jogos da seleção.

Gols.

Entrevista.

2 comentários:

cosmicblues disse...

Achei esse texto bem emocionante - mesmo com a frase final para estragá-lo. hehehe

Desse modo o futebol é mais bonito.

Márcio Neves disse...

hehehe...obrigado!

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