1.12.12

Como era antes - Minha vida no Olímpico



Não são poucas as pessoas que me perguntam: “Não vai escrever alguma coisa sobre a despedida do Olímpico?”.
Sempre pensei em escrever, mas sei que nada do que colocar numa folha de papel conseguirá expressar com exatidão o que sinto ou o que quero dizer.
Aliás, nem sei o que sinto ou o que quero dizer.
Ainda assim, aproveitei a serenidade da madrugada quente deste sábado para traçar algumas linhas sobre o tema.
Juro que não espero que alguém leia até o final, ainda que tenha feito o possível para reduzir o número de caracteres, mas particularmente não me perdoaria se não deixasse esse registro.
Talvez este texto ficasse melhor no dia da demolição do estádio, ou no dia seguinte.
Ou talvez, quando este dia chegar, eu escreva outro.   

Não sei qual a primeira vez que entrei no Olímpico.
Gostaria de saber apenas por curiosidade.
Confesso que este mistério deixa a minha relação com o Estádio um pouco mais romântica.
Tive a sorte de nascer em uma família de gremistas atuantes.
Meu avô foi dirigente.
Meu pai foi dirigente.
Lógico que isso me abriu portas dento do Clube, não vou negar.
Sinto-me um privilegiado e sou grato por isso.
Até hoje, os mais velhos falam do meu pai com carinho.
Contam histórias de sua passagem como dirigente.
Relembram a conquista do Estadual de 1977, quando ele era um dos homens do Futebol.
Com orgulho, procuro seguir seus passos e seus ensinamentos.
Foi como dirigente o que é na vida: honesto, cordial, íntegro e desprovido de vaidade pessoal, esta última, característica que considero uma das maiores virtudes, tendo em vista o meio a qual me refiro.
Meu avô não fica atrás.
Jornalista de estirpe.
Talvez de quem tenha herdado o amor pela profissão.
Escrevia uma coluna sobre o Grêmio na época áurea do Correio do Povo sob o pseudônimo de Dom Luís.
Era um agregador, que chegou ao cargo de vice-presidente do Conselho Deliberativo do Clube.
Muitos dizem até hoje que meu velho avô era, na época, o que hoje é o Paulo Sant´Ana.
Não pela forma de escrever, mas pela repercussão de seus textos.
Nunca levei essa comparação muito em consideração.
Achava um pouco de exagero.
Mas peço licença aos leitores para contar uma breve passagem que ocorreu comigo no Olímpico.
Estava fazendo uma matéria com o lendário João Severiano, ídolo gremista na década de 60 e uma pessoa sensacional. Num certo momento, revelei a ele que meu avô era o Dom Luís.
Sua reação me pegou de surpresa.
Incrédulo, segurou meu rosto com as duas mãos e, com os olhos marejados, me disse: “como é bom saber disso. Teu avô foi o grande responsável pelo meu sucesso dentro do Grêmio e no futebol. Devo muito a ele”. E me abraçou.
Quase chorei.
Orgulho do meu avô.
Bom, voltando ao tema do Monumental.
Minhas mais remotas lembranças me transportam à segunda metade da década de 70.
Eu ali na Social, correndo de um lado para o outro chutando um copinho vazio de cerveja como se fosse uma bola de futebol.
Ou na pista atlética brincando de carrinho.
Como dirigente, meu pai me levava aos treinos nos sábados pela manhã.
Lembro bem disso.
No final do trabalho, eu chutava a bola na que hoje é a goleira da Geral e o Corbo deixava ela passar, fingindo que o chute saiu muito forte, sem defesa.
No vestiário, o Eder me pegava no colo pra me colocar em cima da balança onde os atletas se pesavam.
Na concentração, ali mesmo no Olímpico, eu brincava de autorama com o Iura ou com o Vitor Hugo.
Duvido que alguém da época se lembre, mas tinha uma sala, ali onde hoje ficam os banheiros do bar das cadeiras cativas, que tinha uma pista de autorama gigante onde os atletas passavam o tempo.
Aquilo me fascinava!
Uma vez entrei em campo de mãos dadas com o Eurico.
Foi minha primeira e única vez que entrei com algum jogador.
Certa vez, brincando na casa da minha avó, machuquei a perna.
Meu tratamento foi feito com o massagista Banha, junto com os jogadores, no Departamento Médico do Clube.
Por estes relatos, dá pra perceber que minha relação com o Olímpico começou ali por 1976, 1977.
E não parou mais.
Apesar disso tudo, destas recordações de “bastidores” (acho que posso chamar assim), não tenho lembranças dos jogos em si.
Não recordo de estar presente no Gre-Nal do gol do André Catimba.
Não recordo qual era a partida quando entrei e campo com o Eurico.
Não recordo para qual jogo o Grêmio estava treinando quando eu brincava de carrinho na pista atlética.
Então, qual seria minha lembrança mais remota?
Volta e meia tenho uns flashes da decisão do Gauchão de 1979.
Grêmio 3 x 0 Brasil de Pelotas.
Guardo na lembrança aquela massa invadindo o gramado no apito final do juiz.
Os torcedores colocando as placas de publicidade como ponte entre a arquibancada e o campo, facilitando a invasão.
Era fascinante e, ao mesmo tempo, assustador para uma criança de apenas 7 anos.
A partir daí, as lembranças começam a ficar mais claras.
O título de 1981.
A Libertadores de 1983.
Entrei no gramado logo após o apito final e festejei a conquista ao lado dos jogadores, dentro de campo (até hoje procuro me achar nas imagens daquela época ao lado de meu pai).
Foi, sem dúvida, a maior conquista que comemorei no Olímpico.
Desde então, estive em todas finais.
Gauchão.
Copa do Brasil.
Brasileiro.
Outra Libertadores.
Tantas emoções, tantos detalhes, tantas lembranças que poderia escrever um livro.

Em julho de 1999, passei a servir ao clube como funcionário e não mais como torcedor.
Por mais que o torcedor jamais tenha morrido, inevitavelmente as coisas já não são como antes.
Não que eu não queira, mas porque não podem ser como antes.
Sai o torcedor, entra o profissional.
A paixão continua, mas precisa ser dominada.
Precisa ser canalizada como combustível para que o trabalho seja bem feito.
Não é fácil, de jeito nenhum.
Esta capacidade de lidar e de controlar as emoções que aprendi e aperfeiçoei nestes quase 14 anos de Clube está sendo fundamental para conviver com a iminência da ausência do Olímpico.
Quanto mais a data se aproxima, mas procuro focar no trabalho e pensar em outra coisa.
E quanto mais o tempo passa, mais difícil fica conter a emoção.
Não sei como vai ser.
Não sei se vou chorar.
Não sei se vou rir.
Não sei se vou pra Arena.
Não sei... não sei... não sei.
Só sei que tenho orgulho de tudo que vivi até hoje dentro do Grêmio.
Sou grato a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, cruzaram o meu caminho.
Que me ensinaram.
Principalmente àqueles que moldaram o meu caráter e me tornaram gremista.
Meu pai.
Meu avô.
Corbo.
Iura.
Vitor Hugo.
Baltazar.
Renato.
De León.
Danrlei.
Jardel.
Etc., etc., etc.

Nos vemos na Arena.
Se não for como profissional, que seja como torcedor.
Assim como era antes.

4 comentários:

Diego Mello disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fatturi disse...

Não tinha lido ainda, mas agora sei que escreveu algo sobre o tema, assim como intervi junto a ti aquele dia, te cobrando algum escrito. Obrigado Márcio, aguardo a publicação do livro. Abs!

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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