27.3.14

"Só podia ser um jovem"

Meu pai tem 73 anos e ainda dirige.
Mas isso não é relevante, já que existem várias pessoas com 73 anos (ou mais) que dirigem normalmente.
O que chama a atenção é que meu pai dirige com calma.
Muita calma.
Uma calma que chega a ser irritante.
Lá adiante o sinal está verde, mas meu pai não acelera para passar.
Ele segue na mesma velocidade. No mesmo ritmo.
Vai se aproximando do cruzamento...
O sinal segue verde.
Segue verde.
Segue verde.
Segue verde.
E meu pai ainda não passou.
Até que o sinal fica vermelho.
Fecha.
E sabe quando?
Na hora em que ele vai passar.
Mas meu pai não está preocupado.
Se ele não passou agora, não serão 30 ou 40 segundos esperando que mudarão sua vida.
Volta e meia, nesta tranquilidade no trânsito de Porto Alegre, meu pai sofre pressão dos carros que vêm logo atrás.
Uns buzinam.
Outros pisam forte no acelerador para que ele escute o ruído do motor.
A maioria ultrapassa em alta velocidade, xingando.
Mas ele não escuta porque está ouvindo o último CD do André Rieu, com os vidros fechados.
Porém, quando se dá conta de que está sendo pressionado, se limita em resmungar:
- Só podia ser um jovem, mesmo!
Pra ele, a velocidade no trânsito é culpa dos jovens.
Os jovens que têm pressa.
Os jovens que querem chegar logo.
Os jovens que não têm paciência...
Os jovens que querem mostrar superioridade ou segurança atrás de um volante.
E o pior é que acho que ele tem razão.
Provavelmente estes jovens, daqui a muitos anos, pensarão da mesma forma.
E leva tempo para chegarmos a este grau de tranquilidade e sabedoria.
Muitas vezes nem chegamos.
Até por conta desta pressa.

Hoje, ainda acelero quando vejo o sinal verde lá na frente.
Em compensação, eu sei quem é André Rieu. 
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